CAPÍTULO UM
Como uma imensa árvore de natal
“A esperança é aquela coisa com penas que pousa na alma e canta a melodia sem
palavras.”
— Emily Dickinson
Sou aficionada.
Me considero uma leitora comprometida de livros de ficção e,
para ser sincera, não há nada no mundo que me tire suspiros
demorados como um bom e velho livro de romance. O romance é
frequentemente definido pela promessa de um “felizes para
sempre” no final do último capítulo — embora isso não seja,
obviamente, uma regra.
Sendo bem patética, o que não faz muito o meu estilo, eu queria
ter a chance de pular para dentro de um livro de romance ao estilo
de Orgulho e Preconceito ou até mesmo Romeu e Julieta
apesar do final trágico e ser a protagonista pela qual o mocinho
faz de tudo para agradar. Geralmente, o que se tornou um
clichê, esses homens são incrivelmente lindos, inteligentes e
perfeitos, e até prometem queimar o mundo se isso fizer a
mocinha feliz.
Em muitas histórias de romance que li, as mocinhas têm uma
vida difícil e, na maioria das vezes, são pobres e lutam para
alcançar algum objetivo que mudará suas vidas drasticamente. E,
como tudo nesses livros é roteiro, alcançar esses objetivos
significa mudar para melhor. Quando encontram algum
empecilho no meio do caminho, o mocinho aparece em seu
socorro, fazendo com que ela atinja o seu objetivo geralmente
com menos dificuldade.
Ah… claro.
Tudo o que eu queria era o meu cavaleiro de armadura e cavalo
branco vindo me salvar.
Mas não! Isso só acontece nos livros.
Na realidade, se você tem câncer, você tem e ponto. Não
como fugir disso. Mesmo que um cara lindo apareça para te
“salvar”, você vai continuar tendo câncer, e a sua batalha será
travada sozinha. Ele não vai poder te ajudar. É assim que é.
Respira!
Foco, Esmay! Não é hora para besteiras!
Eu poderia ficar horas divagando sobre livros, músicas e até
mesmo os meus pratos preferidos, sem dar a mínima para o que o
homem à minha frente está falando. Mas a maneira como a minha
mãe pressiona minha mão direita e o meu pai segura firme o meu
ombro me faz ancorar meus pensamentos por alguns segundos e
parar para ouvir o que o homem está dizendo.
Ele tem olhos escuros e puxados. Estou um tempo tentando
adivinhar sua idade. Cinquenta e seis? Não. Ele parece mais
velho. Sessenta anos, então? Isso. Ele deve ter sessenta anos. Seus
traços deixam clara sua origem asiática. para ver que ele não
cresceu no Brasil pelo sotaque carregado e pelos pequenos acenos
de cabeça que faz, como se estivesse acostumado a demonstrar
respeito daquela forma.
Câncer? ouço mamãe dizer, enquanto aperta minha mão
dez vezes mais forte. Como isso é possível? Ela tem 24 anos.
É perfeita!
Câncer… Câncer, câncer, câncer.
Tenho câncer?
Repito um zilhão de vezes essa pergunta na minha mente, na
esperança de que se torne menos verdade. Na intenção de
acreditar que estou em um sonho. Ou melhor: um pesadelo.
Meu coração dispara, batendo no pescoço como se eu estivesse
competindo em uma meia maratona. Sinto o chão sob meus pés
ceder. Vou despencar de um lugar muito alto se continuar
pensando sobre isso.
Câncer. Tenho câncer.
Aperto a manga do meu casaco e um tique nervoso começa a se
formar nos meus dedos. Minha mandíbula treme
involuntariamente. Não quero chorar. Entretanto, acho que vou.
Meu Deus!
Como isso é possível, doutor… Zhang Wei?
Veja só, ele tem ascendência chinesa. Obrigada por me
enriquecer culturalmente, doramas!
Minhas mãos estão formigando e minha boca fica seca. É difícil
engolir, até falar. No entanto, sinto uma desconexão com o meu
próprio corpo. Meus lábios se abrem antes mesmo de a minha
mente atordoada perceber o que estou dizendo:
Senti muitos sintomas estranhos e persistentes nas últimas
semanas para alguém “perfeita”, mãe.
Sacudo a cabeça, como se isso pudesse organizar a confusão que
se instalou em meus neurônios, estalo a língua entre os dentes
(um hábito estranho que adquiri com o tempo) e me remexo na
poltrona confortável e macia demais, como se alguém tivesse
tentado compensar o meu sofrimento dizendo: “Você tem câncer?
Ok. Mas… você está confortável? O tecido da poltrona é macio?
Quer uma xícara de chá?”
Faço tudo e, ao mesmo tempo, nada.
Um silêncio toma conta de cada canto desse consultório
ridiculamente sofisticado, e até mesmo de mim, o que é um feito
considerável.
Estou atordoada. Meu cérebro me prega peças. Charadas que
não consigo desvendar.
Observo o ambiente ao meu redor e percebo a cafeteira
importada em um canto da mesa.
Uma cafeteira importada.
Quem precisa de uma cafeteira importada em um consultório
Oncológico? Quero ir até utilizar uma das cápsulas para me
servir de um delicioso café.
Eu quero um café.
Quero?
Quero mesmo?
Meu cérebro está me pregando peças. Outra vez. Adivinha? Eu
nem tomo café. Mal lembro a última vez em que coloquei um gole
na boca, então por que diabos estou cogitando isso agora?
Doutor Zhang divide o seu olhar entre mim, o tablet e os
últimos exames que fiz. Não me apego a isso. consigo sentir o
aroma do desinfetante de lavanda que usaram mais cedo na
limpeza. Até isso parece ensaiado.
Meus pais me encaram, ambos estupefatos com o meu
comportamento estranho diante de uma situação tão…
desestabilizante.
Massageio a parte posterior do pescoço com as mãos pegajosas,
tentando desfazer uns nós que se formaram.
Fito meus pais mais uma vez. Eles estão com uma expressão
que me destroça por dentro. Não posso lidar com isso. Não agora.
Sendo assim, escolho apenas desviar minha atenção para o doutor
Zhang não antes de murmurar um “desculpe” para a minha
mãe.
A verdade é que nem sei o motivo de ter feito tal comentário.
Não estou em condições de opinar em absolutamente nada. Meu
coração parece que vai sair pela boca. Minha garganta está tão
seca que é difícil engolir a saliva e, se eu continuar a sentir tanta
falta de ar assim… temo desmaiar aqui mesmo. Pelo menos há um
ponto positivo em estar em um consultório médico.
Cansaço incomum, suor noturno inconveniente que encharcava
minhas roupas, febre baixa no fim da tarde… Deus, até coceira
sem causa aparente e perda de peso eu tive. Perdi três quilos, para
ser exata, que não estava com apetite. Faltei inúmeras vezes às
aulas da faculdade por achar que estava exausta demais. Pensei
até que poderia ser anemia. Mas, sabe como é… A vida adora
pregar peças na gente.
Após um episódio nada agradável de tontura e desmaio na
universidade, fui ao médico para saber o que estava acontecendo.
Para mim, não parecia nada demais. um mal-estar. No exame
físico, o médico constatou um linfonodo aumentado; era indolor e
firme, na região do pescoço (cervical esquerda). Quando o médico
solicitou exames estranhos demais para o meu gosto, eu
desconfiei que poderia haver algo errado comigo. E então os
resultados arrasaram as minhas chances de não ser nada grave:
hemograma alterado (leve anemia, leucócitos aumentados). Raio-
x do tórax mostrando massa mediastinal (sombra aumentada).
Encaminhamento para um hematologista-oncologista.
Quando ouvi que ele me encaminharia para um hematologista,
não saquei. Mas, quando disse a próxima palavra: oncologista…
Droga! Meu cérebro se acendeu em alerta, como uma imensa
árvore de Natal.
Oncologia tinha a ver com câncer, e câncer não era nada bom.
O especialista solicitou uma biópsia do linfonodo que
confirmou:
Linfoma de Hodgkin… O-o quê? gagueja meu pai, e o
doutor Zhang endireita os óculos fundo de garrafa.
Linfoma de Hodgkin clássico, subtipo esclerose nodular. É
um câncer bem comum em jovens explica o médico, e meu pai
afunda as unhas na pele dos meus ombros. Ele continua: É o
subtipo mais frequente, responsável por cerca de 60% dos casos
de linfoma de Hodgkin clássico.
Eu tenho muita sorte ou muito azar?
Posso estar enganada, mas percebo que a voz dele não
demonstra ansiedade aparente. Isso significa que não deve ser tão
ruim, né?
É um câncer mais comum em adolescentes e adultos jovens e
quase sempre afeta gânglios linfáticos no pescoço, acima da
clavícula e no tórax (mediastino) continua o doutor Zhang, e eu
prendo a respiração.
Ah, Deus! Técnico.
Ele é muito técnico. Preciso, incisivo.
Não é disso que eu preciso agora, doutor.
Minhas mãos estão suando e eu respiro com dificuldade. Meu
queixo treme freneticamente, e encontro uma forma de apaziguar
esse caos: mordo o lábio inferior e aperto os olhos com força. Uma
única lágrima abre caminho pela minha bochecha, apenas para
que outras a acompanhem logo em seguida.
Tudo bem, Esmay? pergunta o doutor Zhang, em alerta.
Se estiver sentindo alguma coisa basta…
— Estou bem, doutor — minto.
Minhas mãos estão trêmulas e eu pisco várias vezes na intenção
de evitar que meus olhos derramem mais lágrimas. Impossível.
Sinto-me meio estranha também, que a atmosfera do
consultório é assustadoramente sufocante.
Pode me responder uma pergunta? soluço, enquanto
perfuro seus olhos escuros, meu estômago se revirando feito
vendaval.
Ele aquiesce com a cabeça.
Retiro uma mecha do meu cabelo cacheado do rosto, e ele
observa o percurso que mais uma lágrima faz na minha bochecha.
Eu ignoro o pavor que estou sentindo.
Esse câncer é agressivo? indago, sem saber ao certo o que
fazer com as minhas mãos inquietas.
Esmay…
Mamãe choraminga ao meu lado e aperta minha mão
novamente. Acho que vinte vezes mais forte que da última vez.
Sinceramente? Se o câncer não me matar, ela vai. Ou ao menos
pode me causar uma lesão nos nervos de tanto apertar.
Ela se remexe na cadeira para ficar de frente para mim, mas
continuo encarando o senhor Zhang. quero que ele seja
sincero. Médicos precisam ser, ou ao menos eu acho isso. Ele
endireita os ombros e desliza os dedos pelos cabelos lisos e
grisalhos. Isso me deixa incomodada. Médicos são tão frios,
insensíveis. A impressão é a de que estamos no meio de uma
palestra de saúde sobre Oncologia.
Os cânceres considerados ele faz aspas com os dedos
mais agressivos são o glioblastoma e o melanoma… diz
pausadamente, como se eu fosse me desfazer em mil pedaços caso
ele falasse mais rápido. — A essa lista, podemos incluir também os
cânceres de pâncreas, pulmão, fígado e intestino (colorretal). Mas
é importante lembrar que a agressividade pode variar conforme o
tipo e o estágio. Essa ordem, no fim das contas… é uma
generalização.
Ergo as mãos e as chacoalho no ar, chamando sua atenção. Ele
está desviando da minha pergunta. Ótimo! É tudo de que preciso.
Doutor Zhang… não preciso de uma aula extensa sobre tipos
de câncer. Não agora rebato. Por favor, responda à minha
pergunta e seja o mais direto possível, sem enrolação!
O médico pigarreia, envergonhado, e ergue uma sobrancelha
grisalha. Fantástico! Agora, além de fazer parte dos 60% de jovens
adultos com câncer de Hodgkin, sou também mal-educada.
Sinceramente? Pouco me importo.
Qual o prognóstico? Acha que vou perder a minha qualidade
de vida? pressiono, e ele se curva para frente apoiando as mãos
com os dedos entrelaçados sobre a mesa. Tenho chances de
remissão?
Ele sorri. É rápido, mas eu percebo. Não sei bem o que pensar
sobre isso.
Meu câncer é agressivo? repito a pergunta. A pergunta de
meio milhão de dólares, que vai acabar me deixando maluca se ele
não responder. Doutor imploro. Meu câncer é agressivo…
como o de Sthela?
Deus do céu! Sou horrível por perguntar algo assim? Sou
egoísta por querer que meu câncer não seja como o câncer de uma
das minhas melhores amigas?
Meu câncer. Algo nada agradável para eu chamar de meu.
— A questão é essa, Esmay? — retruca o médico.
Fico em silêncio.
Meus pais estão calados bastante tempo. Isso é, no mínimo,
problemático. Ele continua:
O câncer de Sthela é no pâncreas. Extremamente agressivo e
com alta taxa de mortalidade, devido ao diagnóstico tardio.
Geralmente, é assintomático nos estágios iniciais.
Um câncer como esse, quando detectado, já fez muito estrago.
É óbvio que o doutor Zhang tem conhecimento de quem é
Sthela. Todo mundo na clínica sabe seu nome, desde a recepção
até os enfermeiros que circulam em silêncio pelo piso de
porcelanato polido e os corredores amplos e iluminados. Ela é o
que eles chamam de caso raro e extremamente complexo.
Jovem demais para um câncer no pâncreas.
Ouço meu pai soltar o ar, e mamãe afrouxa o aperto em minha
mão. Sinto meus tendões dos dedos doloridos.
Sthela está no que a gente chama de cuidados paliativos.
Mordo a parte interna da bochecha e aperto as mãos até sentir as
unhas perfurando a pele. — Isso significa que…
Eu sei o que isso significa! interrompo. Ela é minha
melhor amiga. Não precisa me falar. Eu sei.
O ar fica preso na minha garganta, e um aperto no peito, quase
insuportável, me faz pressionar os lábios com força. O ar do
consultório agora está frio demais, sufocante.
Quanta dor sinto agora.
Meu coração parece que vai se partir em um zilhão de
pedacinhos microscópicos. Minhas mãos estão pegajosas, e eu
sinto ainda mais vontade de chorar. Conheço Sthela, e ela é minha
melhor amiga. Eu com toda certeza sei o que são cuidados
paliativos.
O médico se remexe na cadeira, e o barulho do corpo em
contato com o couro me assusta. Meu Deus! Endireito os ombros,
antes curvados, e pressiono os olhos com a palma da mão, bem na
base, na esperança de acalmar a mente. Percebo um leve
incômodo em sua expressão facial. Suponho que o doutor Zhang
não possua muita habilidade para lidar com pacientes
emocionalmente intensos.
— O seu câncer não é agressivo, Esmay — declara, enfim.
Abro meus olhos castanhos, e ele percebe minha surpresa. É
óbvio que estou surpresa, doutor Zhang.
Na verdade, ele possui altas taxas de cura. O prognóstico
geralmente é positivo, pois é uma forma de linfoma que responde
bem aos tratamentos. O homem fala com a voz um pouco mais
baixa agora. Minha querida, sei que é duro um médico dizer
isso a alguém… Mas, não se compare à Sthela. São casos
extremamente diferentes.
Ar volta a preencher meus pulmões, de novo e de novo.
Fluidamente.
Meu coração continua acelerado, mas minhas mãos param
finalmente de tremer.
Meu rosto arde — arde muito.
Eu sei o que é isso… é a vontade de chorar, que estou segurando
como uma louca, como se a minha vida dependesse disso.
Não me comparar à Sthela…
Como sou egoísta por pensar que estou feliz pelo meu
prognóstico não ser negativo.
Tenho chances.
Meu pai acaricia minhas costas ternamente. Isso me faz
lembrar de quando eu era criança e ele fazia o mesmo quando eu
me machucava e corria ao seu encontro para que ele pudesse me
acalmar. Algumas coisas nunca mudam.
— Qual o próximo passo agora, doutor? — pergunta papai.
Durante diversos momentos, meus pais se mantiveram em
silêncio, acredito que tentando processar a avalanche de
informações tenebrosas que se lançou sobre nós em tão pouco
tempo. Não os culpo. Sou a única filha que meus pais têm, e eles
possuem todo o direito de sentir medo por mim. Minha mãe
aperta minha mão. Um aperto leve, confortável.
Em contrapartida, meu coração dói. Grita em meu peito.
O que o senhor disser, nós faremos! O tratamento que for,
nós pagaremos assegura mamãe, acariciando o dorso da minha
mão com o seu polegar.
Eu os amo com todas as minhas forças.
O médico respira fundo, como quem escolhe cada palavra com
cuidado.
Agora que temos a confirmação do câncer de Hodgkin
clássico, subtipo esclerose nodular, precisamos seguir para a
próxima etapa explica, entrelaçando as mãos sobre a mesa.
Antes de iniciarmos o tratamento, vou solicitar alguns exames
complementares. Eles vão nos mostrar a extensão da doença e
avaliar se seu coração e seus pulmões estão preparados para a
quimioterapia.
Ele me lança um olhar sério, consciente do peso da notícia.
Os exames indicam que, além do linfonodo aumentado no
pescoço e da massa mediastinal que vimos no raio-x, alguns
linfonodos na região abdominal também estão afetados.
Precisaremos planejar a quimioterapia considerando toda a
extensão da doença.
O médico se levanta, arrastando a cadeira e produzindo aquele
barulho irritante que sempre me dá vontade de fechar os olhos.
Não vai ser fácil, Esmay diz, com a voz firme, mas não fria.
Você precisa ser forte e focar em você e no seu tratamento.
Estaremos juntos a partir de agora. Assim que tivermos os
resultados, marcamos o início do primeiro ciclo da quimioterapia.
— Obrigada.
É tudo o que meus lábios conseguem dizer.
Juntos… Na luta contra o câncer?
Isso é inspirador, doutor Zhang, papai e mamãe. Mas, caso essa
cruzada errado e o câncer se torne um vilão impossível de
derrotar, as coisas se complicarão somente para mim. Então, por
mais que essas palavras sejam bonitas, eu me sinto só. Sem
ninguém para me salvar ou lutar ao meu favor. Sou eu contra
esse tipo diferente de Golias, que parece pesar mil toneladas e
cheirar a tudo, menos coisa boa.
Ninguém pode me tirar disso.
Nem mesmo meu cavaleiro de armadura branca.
Entretanto, afasto todos esses pensamentos para o fundo da
minha mente abalada. Faço isso com frequência, afinal. É uma
das minhas habilidades mais… bem, mais úteis.
Olho para mamãe e papai. Eles parecem confiantes. Doutor
Zhang não desvia os olhos dos meus. Acho que ele também tem
de que posso lidar com isso.
Ok. Ok. Posso mentir, então.
— Estaremos juntos, sim.
É tudo o que digo, e os três abrem um belo sorriso. Um sorriso
que, infelizmente, não alcança os olhos. Eles sequer sabem, mas
eu percebo. Eu presto atenção a tudo. Até mesmo em como eles
obscenamente se enganam. Insistem em acreditar. Acreditar em
uma mentira.
Faço o mesmo com esse sorriso.
CAPÍTULO DOIS
As três mosqueteiras
“Um por todos e todos por um.”
— Alexandre Dumas, Os Três Mosqueteiros
Cada vez que fecho os meus olhos, tento afastar para longe os
burburinhos dos últimos dias de aula na Universidade. As vozes
martelam em meus ouvidos: insistentes. Covardes.
Meus outrora colegas de curso, que participaram de inúmeras
apresentações de seminários comigo, que insistiam em fazer, ao
final de cada ano, um amigo secreto em que sempre alguém saía
com um presente muito duvidoso como um kit de sabonetes ou
algo assim… Meus colegas, que adoravam comentar o quanto era
engraçado e estranho o fato de eu ser uma pessoa introspectiva e,
ao mesmo tempo, tão divertida.
Meus companheiros de curso.
Os mesmos que fizeram para mim um aniversário surpresa de
23 anos e que se empenharam para me presentear com coisas
legais e que eram muito a minha vibe como o box de luxo em
inglês de Jogos Vorazes, um toca-discos com alguns vinis
especiais e a coleção em DVD de O Poderoso Chefão.
Droga! Meus colegas… Agora se transformaram em
“especialistas” no meu tipo de câncer.
Eu curso Cinema e Audiovisual na Universidade Federal de Juiz
de Fora (UFJF) e, a meu ver, é peculiar a ideia de que informações
sobre o linfoma de Hodgkin, subtipo esclerose nodular, façam
parte do arcabouço intelectual da maioria dos alunos do meu
curso. Ainda me pego pensando em como, após o diagnóstico em
setembro, tentei frequentar a universidade. No entanto, os
murmúrios das pessoas à minha volta me deixavam
desconfortável.
Não conseguiam mais me olhar para além do meu diagnóstico?
Era só o câncer o que viam?
Então, tranquei o curso e me vi obrigada a voltar a morar com
os meus pais, em Belo Horizonte. Pelo menos até finalizar o
tratamento. Não que os meus pais estivessem desapontados com a
filha sendo nada menos do que uma covarde por trancar a
universidade e sair correndo como uma bebê chorona que perdeu
o brinquedo. Eles estavam felizes por eu voltar a morar com eles e
por aceitar toda a ajuda, o amor e o dinheiro que tinham para
oferecer.
A verdade é que eles são seres humanos incríveis e
completamente fora da curva no quesito “pais”. Se existisse uma
premiação para melhores pais do ano, ocupariam o primeiro lugar
no pódio.
Eu queria ter o poder de impedi-los de passar por isso. É
terrível presenciar a única filha deles numa luta contra o câncer.
Meus queridos pais foram pegos de surpresa pela notícia, que
o dia em que me acompanharam ao consultório do doutor Zhang,
numa segunda-feira qualquer, foi exatamente o momento
devastador em que o chão sob seus pés se transformou em areia
movediça. Eles não tinham ideia dos meus sintomas estranhos.
Nem mesmo do desmaio na universidade. Isso foi cruel da minha
parte.
Culpada!
Os sintomas começaram no início de agosto.
Eu estava tão esgotada das provas da faculdade que sequer
pensei na possibilidade de estar doente. Atribuí o cansaço
incomum e até mesmo os episódios de febre leve à rotina
apertada. No início de setembro, o que eles chamam de sintomas
B piorou: suores noturnos que me faziam trocar a camiseta no
meio da noite, febres vespertinas sem motivo aparente e perda de
peso sutil, mas progressiva, que fez com que Ludmilla notasse que
havia algo de errado comigo.
O episódio de desmaio na universidade veio no final de
setembro, para complementar esse show de horror, e foi o
suficiente para fazer Milla minha melhor amiga, quase médica
ligar o alerta no seu cérebro de nerd e me obrigar a fazer uma
consulta. Na primeira semana de outubro, passei com o Dr.
Zhang. A biópsia confirmou: linfoma de Hodgkin clássico
subtipo esclerose nodular.
E como se isso não fosse o bastante, a vida decidiu brincar
comigo mais um pouquinho. Em meados de outubro, o PET-CT
um exame que mostra onde o câncer está ativo no corpo,
destacando as áreas em que as células usam mais energia
revelou linfonodos comprometidos: cervical, mediastinal e
abdominal.
Estágio III.
Ok. OK. Até aqui, uma montanha-russa que só desce.
No final de outubro, meu médico fez avaliações cardíacas e
pulmonares, planejou a quimioterapia e, com um olhar sereno e
confiante, me deu expectativas de remissão.
Remissão…
Cura.
Minha vida de volta. Era tudo o que eu queria.
Sendo assim, acreditei. Confiei.
Antes de atender aos pedidos insistentes dos meus pais e me
mudar para Belo Horizonte, onde, de acordo com eles, eu poderia
me tratar em uma das melhores clínicas e com um respeitável
oncologista o doutor Zhang passei alguns dias no meu antigo
apartamento (um dos muitos imóveis do meu pai), em Juiz de
Fora, que ele gentilmente cedeu e que eu dividia com as minhas
duas melhores amigas: Sthela e Ludmilla.
Me mudei para Juiz de Fora três anos para cursar
bacharelado em Cinema e Audiovisual, que sempre foi o meu
sonho de criança. eu tive o prazer de conhecer Sthela, após um
ano vivendo a fase mais introspectiva e sem sal de toda a minha
vida. Eu a conheci no segundo ano da faculdade, enquanto fazia
cosplay de Carrie, A Estranha. Não que eu sofresse bullying e,
para me vingar, desenvolvesse poderes telecinéticos e matasse
todos. Não era isso. Eu era fechada e tímida demais. Calada ao
extremo. Na faculdade de cinema, isso pode ser um problema.
Sthela surgiu para me tirar desse limbo de esquisitona, e
rapidamente nos tornamos almas gêmeas, inseparáveis. A
amizade com Ludmilla — a nerd do nosso grupinho — veio depois,
quando ela derramou sem querer um copo de chá gelado na
minha blusa predileta. Meses depois, descobri que chá gelado,
sabor Bubble Mix, era uma de suas bebidas favoritas da vida.
O quase afogamento com chá gelado foi tão inesperado para
mim e desconcertante para ela, que, na intenção de se mostrar
arrependida, Milla disse que pagaria a lavagem da minha
camiseta e que ela ficaria perfeita novamente. Após alguns
segundos, sugeriu que poderia lavar a blusa para mim no
banheiro feminino da universidade e que eu me surpreenderia
com o quão boa ela era com produtos químicos e limpeza de
manchas.
Muito nerd.
Fiquei tão chocada por conhecer uma pessoa claramente
inteligente, engraçada e com pensamentos tão genuínos e, sem
sombra de dúvidas, acelerados, que a minha única reação inicial
às suas sugestões questionáveis foi erguer uma sobrancelha
escura e, logo em seguida, sorrir.
Abri um sorriso para ela, que retribuiu. Sthela apareceu uns dez
minutos depois com uns bolinhos de chocolate para a discussão
do livro O Sol é Para Todos, do nosso clubinho do livro com
impressionantes duas participantes: eu e ela. Convidamos Milla
para ir conosco, e ela logo aceitou.
Naquele dia, nós três fomos a um café superfaturado e
conversamos sobre as nossas vidas, interesses amorosos, desejos
para o futuro, medos, frustrações e um milhão de outros aspectos
da vida de jovens adultas.
As conversas se tornaram tão intensas e, ao mesmo tempo,
desconexas, que, quando percebemos, falávamos sobre Augusto
Nogueira, um garoto melequento e loiro que fazia bullying com
Sthela no ensino fundamental e que ela, até hoje, não superou.
É engraçado pensar que, desde aquela tarde qualquer em que
uma garota de 1,80m de altura, com cabelos crespos volumosos,
uma pele negra lindíssima repleta de tatuagens e um sorriso tão
perfeito quanto o resto do seu rosto me deu um banho de chá
gelado e aceitou, de bom grado, fazer parte de uma tarde com
duas estranhas… minha vida social mudou drasticamente. Porque
Milla e Sthela eram tudo de que eu precisava.
Naquele mesmo dia, fizemos um grupo no WhatsApp, e isso foi
mais que suficiente para desencadear uma discussão sobre qual
seria o nome do grupo. Sthela sugeriu que fosse As Três
Mosqueteiras, ao que Milla se recusou, insistindo que seria
melhor se fosse um nome mais original, como o do seu desenho
animado favorito da infância — As Três Espiãs Demais.
Antes que as duas agarrassem os cabelos uma da outra naquele
café chiquérrimo, repleto de pessoas que nos encaravam mais
do que o normal, eu não me abstive da discussão e reivindiquei o
voto de Minerva. Escolhi As Três Mosqueteiras, mas porque
sou fã de Alexandre Dumas.
E, nesta tarde de uma sexta-feira qualquer as duas se
tornaram minhas melhores amigas.
Por essa razão, foi duro quando Sthela descobriu, alguns
meses, o câncer de pâncreas. Quando foi diagnosticada, estava
muito avançado. Não gosto de reviver aquele dia; o corpo lembra
antes da mente. Ainda sinto, no fundo da língua, o gosto amargo
que subiu quando ela disse a palavra câncer o dela, tão
agressivo, tão rápido.
Naquele dia, não sei bem como aconteceu. Em um segundo,
Sthela nos contava sobre a doença dela e, no outro, eu corria
para o banheiro, tentando expulsar tudo que tínhamos comido
horas antes.
Na época, achei que tinha o estômago fraco para notícias fortes.
Hoje, vivendo o meu diagnóstico, entendo que não era isso. A
verdade é simples: eu não estava preparada para ver uma das
pessoas que mais amo enfrentar aquele tipo de inferno. Porque
enfrentar um câncer é uma batalha cansativa. E, no caso dela, era
ainda mais cruel.
Acompanhar a luta de Sthela de perto ver as forças
diminuírem, ouvir que o tratamento não estava funcionando,
sentir o desespero quando ela se agarrava ao seu gatinho Cato
para não desmoronar foi como assistir alguém que você ama se
apagar aos poucos. Às vezes ela dizia que já não tinha esperança.
E eu entendia.
Ver uma amiga como Sthela passar por isso dói como lâmina
entrando devagar.
Ninguém deveria enfrentar algo assim.
Ela, menos ainda.
Quando penso na Sthela com medo de perder a luta dela, sinto
meu peito apertar. E, agora que carrego a minha, o medo
cresceu. Medo por nós três.
Como vai ser se o nosso grupo se desfizer?
Como vai ser para a Milla se acabar perdendo duas de suas
melhores amigas?
Será que ela vai chorar?
Nunca vi a Milla chorar.
Será que ela vai sofrer?
Claro que vai. Que pergunta mais imbecil!
Eu espero que ela seja forte. Porque, no fim, parece que
estamos perdendo.
Eu e Sthela estamos perdendo para o câncer cada uma à sua
maneira, mas perdendo. Disso eu sei.
CAPÍTULO TRÊS
Por favor, me salva, Katniss!
“A esperança é a única coisa mais forte que o medo.”
— Presidente Snow, Jogos Vorazes, Suzane Collins
— Isso não está dando certo!
— Ok, mãe. Agora me fala uma coisa que eu não sei?
— Esmay… toda essa situação é embaraçosa.
Eu a encaro por alguns segundos e depois desvio o olhar. Ela
parece não se importar. Sendo bem sincera, mamãe nunca parece
se importar com a minha indiferença velada.
Isso foi longe demais pondera, massageando as
têmporas, um dos pés batendo no chão de porcelanato num tique
nervoso.
Shhh… Mãe, você está falando alto demais. Só… para. Ela
revira os olhos, irritada. — Por favor.
Minha mãe bufa e prende os cabelos cacheados e limpos em um
coque improvisado. O cheiro suave do shampoo o mesmo que
uso — chega até mim.
Ela está mais de vinte minutos caminhando de um lado para
outro na sala de infusão, como se sua vida dependesse disso.
Como se, para o sangue circular e o coração não parar, ela
precisasse cumprir esse ciclo de vinte passos por minuto. Os
saltos agulha vermelhos fazem toc, toc a cada passo.
Vai me deixar maluca desse jeito.
Ela desliza de uma extremidade a outra da sala com as mãos na
cintura — postura rígida e, mesmo assim, absurdamente elegante.
Mamãe é uma das mulheres mais atraentes que vi. Meu pai
também não é de se jogar fora. Mas é perfeitamente
compreensível que toda a beleza que as pessoas insistem em ver
em mim venha dela.
Somos muito parecidas sou sua versão mais jovem.
Obviamente, uma versão menos comunicativa, mais séria, mais
indiferente às vezes. Mas ainda assim, uma versão.
Meu cabelo é uma das primeiras coisas que as pessoas notam.
Os poucos caras com quem saí sempre o elogiavam: cacheado,
volumoso, cheio de movimento, com cachos definidos que
moldam meu rosto e dão a ele um ar vivo.
Meus traços delicados e os olhos castanhos também vieram da
mamãe. E, para não dizer que meu pai ficou de fora na divisão
genética, admito que o cromossomo Y dele fez sua parte ao me dar
essa pele quente e uniforme. Uma contribuição pequena, mas
estatisticamente relevante.
O sorriso também. Como pude me esquecer? Devo a ele.
O corpo esguio, naturalmente elegante, com curvas suaves e
proporcionais, eu puxei da mamãe. Resumindo: sou a soma dos
dois — mas muito mais parecida com ela.
Dona René me observa com os olhos semicerrados, um quê de
desafio pairando em seu rosto belo.
Ah, mãe. Eu sou muito mais teimosa do que a senhora
imagina.
Isso não está dando certo repete, dessa vez com mais
ênfase. E não paro de pensar que talvez ela esteja certa.
Fecho os olhos e passo as mãos pela manta macia e esterilizada
— espero que sim. Mas claro que sim. Disponibilizada pela clínica.
Aconchegante este lugar.
É quase irônico dizer que uma clínica oncológica é acolhedora
quando, na realidade, existe uma dúzia de pessoas a poucos
metros daqui lutando contra o câncer.
Ainda assim, os profissionais se esforçam para que a nossa
estadia apesar de curta, em alguns casos seja agradável,
dentro do possível.
Afundo-me ainda mais na poltrona creme e estico as pernas no
apoio. Do canto do olho vejo meu MacBook, os fones e o Kindle
sobre a mesa lateral de madeira.
Todos inúteis no momento.
Não sei se consigo ouvir música, mesmo que seja The
Cranberries minha banda favorita nem escrever no meu
diário ultra escondido, como se fosse uma agente secreta do FBI.
Muito menos reler Jogos Vorazes pela milésima vez. Nunca sai de
moda, né?
Na verdade, não sei se consigo me concentrar em nada.
Às vezes sinto a cabeça girar e, mesmo sentada nessa poltrona
mais confortável que as do meu antigo apartamento em Juiz de
Fora, não consigo racionalizar meus pensamentos. Parece que
meu cérebro é feito de algodão.
— Está me ouvindo, Esmay? — pergunta minha mãe.
Ela não parece se importar com a presença da enfermeira. Não
que seja esnobe: está apenas nervosa demais com toda essa
confusão e não consegue ser gentil. Ao menos não comigo.
A enfermeira, Simone, veio pela segunda vez checar a
velocidade da bomba e o frasco de dacarbazina — não tira os olhos
dele.
Dacarbazina é um dos medicamentos do protocolo ABVD. Um
quimioterápico que danifica o DNA das células do linfoma e
impede que elas se multipliquem. Ela arde. Arde mesmo. É lenta
porque, se correr mais rápido, minhas veias literalmente
reclamam.
Simone me observa por alguns segundos.
Parece ter seus vinte e poucos anos. Pele negra, cabelos
cacheados com mechas vermelhas presos em um coque perfeito.
Os olhos tão escuros que mal diferencio a íris da pupila. Uma das
enfermeiras mais gentis daqui. Sempre conversa comigo sobre
livros e música quando pode.
Ela é muito bonita. Poderia facilmente ser modelo.
Qualquer náusea diferente, me chama orienta com voz
suave.
— Obrigada — respondo. Ela sorri e se afasta.
Sem aviso, começa a guerra fria de olhares entre mim e minha
mãe.
Eu só queria pegar o Kindle, ler até o fim da infusão — que pode
durar mais uma hora, talvez uma hora e meia e fugir
mentalmente para Panem. Mas mamãe está irredutível. Quer
falar. E vai falar. Agora.
Foi mal, Katniss Everdeen.
Hoje não será o dia em que vou te ver irritando o escroto do
Presidente Snow pela septuagésima vez.
— Posso te fazer uma pergunta, Esmay?
Agarro o Kindle e os fones. Por favor, me salva, Katniss!
— Você vai… me responder?
— Você ainda vai fazer — digo.
— Como é que é?
Ela franze a testa, confusa, e logo o semblante irritado volta ao
normal.
Caso eu diga que não quero responder explico —, a
senhora vai perguntar mesmo assim. Então em frente.
Pergunte.
Ela se aproxima com agilidade. Quando percebo, está a
centímetros do meu rosto. Observo o soro descendo pelo Port-a-
Cath. Primeira dose do segundo ciclo da quimioterapia.
Esmay Elizabeth.
— Ah, mãe!
Ela revira os olhos. Minha mãe é teimosa e astuta. Eu também
sou.
Aprendi com ela.
— Você devia contar — adverte, com as mãos apoiadas em meus
ombros.
Bufo e balanço a cabeça. A frase sai de sua boca de novo,
repetida como um mantra. Admirável, até. Essa obstinação
inabalável, essa fé quase cega no próprio argumento. Em qualquer
outro dia, eu acharia provavelmente a cena bonita. Talvez até
épica.
Mas hoje…
Hoje meu estômago revira, meu corpo está exausto e tudo o que
eu consigo pensar é no quão injusto é precisar lidar com discursos
apaixonados enquanto luto para não vomitar no meio da
conversa. Que timing impecável, aliás. Eu odiaria sujar os seus
sapatos bonitos.
Bem… hoje definitivamente não é o dia ideal para esse tipo de
debate.
— Tem que contar a elas, Esmay.
— Mãe… por favor. Pare.
Ela resmunga algo como “você não pode ser tão egoísta, né?”.
Nem levanto os olhos.
Releio o mesmo parágrafo do livro Em Chamas, catatônica
um adjetivo preciso para meu torpor.
É a parte em que Katniss visita o Distrito 11 e encara os
familiares de Rue e Thresh.
Rue — tão jovem, tão doce.
E ainda assim, Katniss não pôde salvá-la.
Lamento por Katniss, por Peeta, por Rue. Deslizo os olhos pela
cena em que a presença da família dos tributos mortos pesa sobre
Katniss como uma ferida que não cicatriza.
A tristeza da mãe de Rue, dos irmãos, é viva, queimando
devagar e Katniss se sente pequena e completamente impotente.
Tudo que fez parece insuficiente diante daqueles olhos que ainda
procuram a filha no mundo.
Uma dor lenta.
Uma dor conhecida. Terrível.
De repente me pego pensando: por que diabos estou sofrendo
por personagens fictícios quando minha vida é uma tragédia
grega em andamento?
Você já não tem problemas demais, Esmay?, penso.
Finalmente olho para mamãe. Seus olhos castanhos, iguais aos
meus, observam meu rosto. Um sorriso fraco aparece em seus
lábios pintados de vermelho-vinho. Murmuro um “desculpe”,
meio desajeitado. Ela acena com a cabeça.
Preciso parar de ser imbecil com as pessoas ao meu redor.
Preciso parar de ser idiota com os meus pais.
Com minha mãe.
Só… preciso parar.
Ela desliza as mãos pelos meus braços nus e eu fecho os olhos.
Respiro fundo uma, duas vezes.
Ela massageia minha bochecha com o polegar. Olho pelas
janelas amplas da sala de infusão. Quero tocar as rosas do jardim
lá fora. Respirar o ar úmido, sentir cheiro de terra molhada.
Está chovendo. Ah…
Quero sentir as gotículas na pele, no cabelo.
Mas não posso. Preciso ficar aqui enquanto meu corpo recebe
outra enxurrada do protocolo ABVD.
O Dr. Zhang explicou que, para o meu tipo de linfoma
clássico, subtipo esclerose nodular, estágio III esse é o
tratamento padrão. Quatro medicamentos que trabalham juntos
para destruir as células espalhadas pelo mediastino, pelo pescoço,
pelo abdômen. Funciona muito bem na maioria das pessoas, é o
mais eficaz para controlar e, com sorte, curar.
Mas cada ciclo leva o corpo ao limite: cansa, corrói o estômago,
causa alopecia, rouba o ar.
Rouba até a esperança — se eu não me policiar.
Estou no segundo mês dessa guerra química e parece que cada
gota entrando pelo Port-a-Cath arranca um pedaço de mim.
E, por Deus, se minha mãe continuar com o discurso de que
devo contar para as minhas duas melhores amigas sobre o
diagnóstico, sou capaz de arrancar todos os fios do meu cabelo
antes mesmo que a químio faça isso por mim.
Esmay, eu espero que você me perdoe pelo que fiz diz ela,
ainda acariciando meu rosto. Prende uma mecha atrás da minha
orelha. Para ela, ainda sou uma garotinha. A sua garotinha. Sei
que não tenho o direito de me intrometer na sua vida ou decidir
por você, coisas que você tem plena capacidade de decidir
sozinha.
Franzo a testa e mordo a parte interna da bochecha.
Onde ela quer chegar?
Não quero que você se arrependa de uma escolha estúpida.
Então eu tomei a frente.
Tomou a frente? Eu não… gaguejo. Ela tira a mão do meu
rosto. Uma sirene dispara na minha cabeça. Não. Ela não fez isso.
— Mãe…
Respiro fundo.
— O que a senhora fez?
— Fiz o que era certo.
— Mãe…
Tento me levantar, mas ela coloca as mãos nos meus ombros e
me guia de volta para o encosto. O mundo gira, as luzes piscam.
Não tinha esse direito. Não faz ideia do quanto isso… Ah,
meu Deus! Que merda!
— Eu sei — admite, com um fio de voz.
Sabe? Sabe mesmo? pressiono. Eu precisava de mais
tempo. Só isso.
— Filha, o seu tempo é precioso. Não desperdice.
Meu Deus, mãe! Você não tinha o direito de fazer isso. A
escolha é minha! esbravejo, fazendo um movimento com os
braços que me faz ficar tonta. Era minha escolha. Minha
decisão.
Ludmilla e Sthela têm o direito de saber que você está
doente, querida rebate, e eu percebo que os seus olhos estão
tristes. O rosto cansado, as olheiras profundas. Você entende o
peso dessa decisão?
Sou uma pessoa horrível.
Entendo, mãe. Ela abre a boca para falar e depois fecha.
Continuo: Eu ia contar quando estivesse pronta e eu sei que
parece ridículo, escroto e egoísta da minha parte. Eu sei…
— Esmay…
Mas não pode continuar agindo como se eu não fosse
uma mulher adulta. Posso tomar decisões por mim mesma,
sobretudo as difíceis. Não pode sair por assumindo a frente das
minhas coisas. Precisa me deixar resolver minhas próprias
questões sozinha!
Filha, você está na primeira rodada do segundo ciclo de
quimioterapia pondera. Percebe isso? se passaram quase
dois meses desde o diagnóstico, e você ainda acha que não é o
momento?
Balanço a cabeça, em irresignação. Ela me observa mais
intensamente. Os lábios franzidos denunciando o tamanho da sua
cautela quando diz:
— Percebe o quão problemático é tudo isso?
Percebo, mãe.
Seria uma tola se não admitir que isso consome quase toda a
minha cabeça e se não consumisse, eu me preocuparia
seriamente com a integridade do meu sistema neural.
Mas sempre tem uma fagulha de vontade que me obriga a
proteger os sentimentos das minhas amigas. Por isso precisava
preciso — de tempo.
Abro a boca. Nada sai. Pareço um robô danificado.
— Sinto muito, Esmay.
Ela solta minha mão. Sinto um aperto no peito difícil de
suportar, e o calor do seu toque reconfortante vai embora.
— Ligue para as suas amigas. Elas estão aguardando.
— Mamãe, eu…
— Você precisa delas mais do que nunca agora.
Uma lágrima desliza pela minha bochecha. Limpo com o dorso
da mão. Um soluço me sacode.
Minha mãe é uma mulher forte. Entretanto, sei que está
sofrendo. Isso a fez prescindir do que ela mais valoriza, que é a
confiança que as pessoas depositam nela. A que depositei nela.
Passou por cima de toda a sua moral e ética para tentar fazer com
que sua filha doente e agora depressiva enxergasse um mundo
onde existam cores. Esperança.
Elas também precisam de você, meu amor sussurra. Por
favor, por favor, não se abstenha.
Ela me olha nos olhos mais uma vez, com uma feição que diz:
“Tudo bem. Vai ficar tudo bem.”
Sinto um frio intenso e paralisante quando ela se afasta antes
que eu perceba, como uma aparição.
Mamãe se retira da sala de infusão, onde a vida parece se
comportar de maneira intrigante. Os sons são mais altos, os
cheiros mais fortes, o perfume de lavanda oriundo do desinfetante
usado mais cedo na limpeza do chão, o aroma de chá e café
inundando minhas narinas, penetrando em minha mente,
transportando-me por alguns segundos para Tiradentes (a cidade
natal da minha avó paterna), onde vivi uma parte da minha
infância doce e afetiva… Todas essas sensações e sentimentos me
fazem fechar bem os meus olhos e suspirar profundamente.
Antes de sair pela porta de madeira, ela deposita um beijo
molhado em minha bochecha, a saliva se misturando com as
nossas lágrimas salgadas. Ela acaricia meus cachos, beija minha
testa e então cantarola, me ninando durante algum tempo,
balançando o meu corpo com cuidado e amor.
Mamãe cantarola baixinho, uma canção que costumava cantar
pra mim quando eu era criança.
Sinto saudades da minha infância.
Quantas saudades sinto da minha infância em Tiradentes.
Olha, se você preferir, eu falo para elas não tocarem no
assunto diz ela baixinho, segurando com força a barra da sua
blusa azul-marinho. Suas mãos estão tremendo e eu não consigo
parar de olhar… para isso. Se for necessário, eu nem toco no
assunto. Você escolhe, Esmay.
Assinto com a cabeça.
Ela se afasta, deixando-me sozinha, divagando sobre as minhas
opções, afogando-me em minha culpa. Arregalo os olhos e pisco
várias vezes. A respiração pesa, presa na garganta como um
nódulo. Quero dizer que ela não tinha esse direito; no entanto, as
palavras somem.
Fico abalada com a constatação de que a minha mãe escondeu
muito de mim. Me sinto invalidada e dilacerada por ela passar por
cima da minha escolha e contar sobre o meu diagnóstico sem o
meu consentimento. Abdicar do que ela mais preza, que é a
confiança entre nós, diz muito sobre as circunstâncias que
estamos vivendo no momento.
Engulo a saliva e a revolta que estou sentindo, tentando não
parecer insegura. Não gostaria de tomar essa decisão agora, tão
rápido. Minha mãe me ajudou e eu sei disso. Mas isso não anula o
fato dela ter tomado algo muito valioso para mim, a minha
escolha, e ter exposto a minha condição médica antes que eu
mesma estivesse pronta para fazer isso sozinha.
E mesmo que eu não queira admitir, parte de mim entende. Ela
me empurrou para um precipício do qual, cedo ou tarde, eu teria
que me aproximar.
Me obrigou a olhar lá embaixo e enxergar o abismo.
Mas pular ainda é comigo.
Fecho os olhos com força por alguns segundos e respiro fundo,
sentindo uma gama de sensações e sentimentos em meu âmago:
raiva, mágoa, tristeza, gratidão, confusão.
— Eu tenho medo — digo, por fim, com uma voz pequena.
O barulho das vozes se unem ao som da chuva fora e quanto
mais contemplo o teto com forro de gesso e as luzes amarelas que
iluminam o ambiente e dão um charme acolhedor a esse lugar,
sinto meu peito apertando, devagarinho.
— Preciso falar com as minhas amigas — sussurro.
Quem sabe assim… eu finalmente acredite que isso tudo é real.
E não apenas fruto da minha criatividade exagerada.
CAPÍTULO QUATRO
Não minta para mim, nunca
“Três coisas não podem ser escondidas por muito tempo:
o sol, a lua e a verdade.”
— Buda
— Elizabeth?
Milla é a única que me chama de Elizabeth quando quer que eu
preste
atenção.
— Ei, Elizabeth?
Ela me chama pela quarta vez, acho.
Não respondo.
Fico completamente paralisada. Meus olhos castanhos
observam com clareza as minhas duas amigas mais próximas na
videochamada, mas não consigo falar. Socializar. Minha língua se
transformou em um emaranhado de fios complexos e difíceis de
desatar.
Eu sou uma bagunça.
Elizabeth? repete. Travou a ligação, será? pergunta a
Sthela.
Sthela não diz nada, mas imagino que balance a cabeça em
negação, ao que Milla prontamente entende como uma deixa para
tentar, de novo, uma conexão comigo. Estou tão perdida que,
neste momento, isso é tudo de que preciso.
Esses últimos dias foram intensos e repletos de reviravoltas em
relação à minha condição médica. Optei por não ter muito contato
com minhas amigas, que estava escondendo delas a minha
doença… e, por esse motivo, sempre arranjava uma desculpa para
não conversar por videochamada. Assim, passamos quase dois
meses tendo somente o prazer de ouvir as vozes umas das outras.
A de Sthela, nem sempre. Nas últimas semanas, ela estava
preferindo falar apenas por mensagem. Acho que entendo o
porquê.
— Esmay?
Essa voz… Sthela.
— Olhe para mim, querida.
Sthela sempre teve uma voz firme e gentil na mesma medida.
Ouvi-la chamar meu nome e me transmitir a segurança de que
necessito… presenciar sua calma e controle emocional, mesmo
diante de tanta pressão… vê-la resiliente uma de suas
características mais marcantes e me fazer entender que ela é
forte, mesmo quando o corpo tenta convencê-la do contrário…
tudo isso me faz pensar que eu preciso enfrentar essa situação que
me causa medo, mas nunca permitir que o medo decida. Não
posso me dar ao luxo de fugir desse sentimento difícil que insisto
em guardar no meu coração e que me sufoca, me adoece. Tenho
que encarar, processar e seguir em frente.
Me deixe olhar para você diz, com uma voz trêmula. Ver
seus olhos.
Meu coração se estilhaça. Como chegamos a isso?
Num instante, como se fosse mágica, uma das boas, meus olhos
se concentram em um ponto fixo na tela. Eu a vejo. Tão frágil.
Olho para ela. Olho de verdade.
O sorriso que abri por alguns segundos se dissolve quando
contemplo: os olhos azuis límpidos e grandes, apagados, como se
tivessem perdido todo o brilho. Os lábios estão brancos, e a pele
pálida se opõe ao vermelho sangue do papel de parede logo atrás
de sua cabeça. Dói na alma quando observo suas bochechas, antes
angulosas e coradas, agora com os ossos mais evidentes. Ela usa
um lenço em um tom de azul-claro, e eu penso que combina com
a cor de seus olhos. Sthela ouve baixinho uma música muito
parecida com Up The Junction, de Squeeze a música tema do
nosso trio. A voz do vocalista me transporta para uma lembrança
distante: o dia em que ouvimos a música juntas no nosso antigo
apartamento. Considero aquele um dos momentos mais especiais
da minha vida.
Ela continua me encarando, assim como Milla, como se
pudessem ouvir o zum-zum-zum sem nexo da minha cabeça. Um
silêncio se instala entre nós, e era mesmo de se esperar que algo
assim acontecesse.
— Me desculpa — soluço, escondendo o rosto.
Sinto uma pontada no meu Port-a-Cath e penso ter machucado.
Não. Foi impressão minha. Mas sinto uma dor lancinante no
peito e o peso do mundo nos meus ombros, me obrigando a
curvá-los. Um buraco no meu estômago se forma, como se fosse
me partir ao meio. Respiro fundo, mesmo de forma desajeitada, e
com o rosto ainda entre as mãos trêmulas, murmuro novamente:
“desculpe, desculpe, desculpe.” Insistentemente.
Vergonhosamente.
As vozes das pessoas vindas do corredor, fora da sala de
infusão, e o barulho insistente de passos me conectam à realidade.
A náusea volta a se formar na boca do estômago e agora ouço,
mais forte, o barulho da chuva lá fora.
Está tudo bem, Esmay diz Sthela, tentando me
tranquilizar.
Quero dizer que não está. Mas não consigo. Minha respiração
está entrecortada e a dor no peito continua me sufocando.
Continuo com o rosto entre as mãos, incapaz de encarar minhas
duas melhores amigas. Sinto vergonha por ser tão egoísta a ponto
de esconder meu diagnóstico. Elas mereciam saber, e eu insisti
em não contar. Fiz isso na intenção de poupá-las. Não queria ser
eu a infligir sofrimento às duas. Ainda assim, agora percebo que
não fez diferença alguma.
Porque eu vejo. Eu sei e sinto no âmago do meu ser como um
vírus difícil de curar: ambas estão sofrendo.
Quero poder dizer a elas que vou ficar bem. Que esse meu novo
jeito não passa de uma reação ao tratamento e à doença. O fato é
que nem eu mesma pareço acreditar nessa falácia.
— Me desculpa — repito.
Ergo finalmente meu rosto, molhado pelas lágrimas, e devo
estar horrível, porque Milla está com as sobrancelhas tão
levantadas que quase se juntam à raiz do cabelo. Os olhos repletos
de complacência… e ali há muito, muito amor.
Para, Elizabeth implora Milla, levando uma das mãos aos
cabelos. Sinto uma pontada no coração ao ouvir a falha em sua
voz. Ela está segurando o choro?
— É sério — insisto.
Milla balança a cabeça.
— Eu sinto muito. Muito mesmo. É só que…
Sthela não diz nada dessa vez.
Apenas me observa com as sobrancelhas franzidas e um olhar
tão sereno que esqueço o que estava dizendo. Ela é como uma
noite de verão sob o luar: tranquila, gentil.
Quero poder dizer que sinto muito por todas as mentiras.
Respiro fundo e agarro a manta macia que me protege do frio
da sala de infusão. estou quase finalizando a medicação. É
agora ou nunca.
Antes que eu comece a explicar como tudo aconteceu e os
motivos que envolveram a minha decisão contraditória de
esconder o câncer, a enfermeira volta para a checagem padrão do
frasco de Dacarbazina e, com um sorriso gentil, anuncia que a
infusão chegou ao fim.
Fico constrangida, porque, se antes minhas amigas tinham
dúvidas sobre a gravidade da minha doença, agora podem tirar
suas próprias conclusões. E Milla, como um modelo perfeito de
aluna excepcional, certamente fará suas próprias resoluções.
Posso ver as engrenagens se movimentando em sua mente de
nerd: seus olhos escuros ficam vivos, calculando probabilidades,
diagnósticos…
O quanto a minha mãe contou? Não faço ideia.
Quem disse “frasco de Dacarbazina” e por quê? indaga
Milla, com as sobrancelhas franzidas.
O-o quê? rebato, ansiosa. Tenho vontade de arrancar os
meus olhos ao perceber que as engrenagens em sua mente se
movimentam ainda mais rápido, lubrificando lugares onde antes
não havia movimento, chegando a resultados, afirmações,
constatações críveis. Corretas.
Alguém disse: “frasco de Dacarbazina.” Ela afirma,
pensativa. Eu ouvi perfeitamente. Quero saber quem disse e
por quê, Elizabeth. Não minta para mim. Nunca.
Ela é inteligente o bastante para deduzir. Na realidade, Milla é
brilhante.
Uma quase médica de 23 anos que tinha o sonho de se
especializar em Oncologia. Desistiu quando viu crianças demais
enfrentando o câncer e morrendo. Sem parar. Nenhuma pessoa
deveria passar por isso, sobretudo uma criança.
“Eu não dou conta disso. Prefiro me especializar em Neurologia
a ter que ver isso todos os dias.” Foi o que ela confidenciou a mim
e a Sthela.
Ludmilla sempre foi a mais racional do grupo: observa
primeiro, fala depois, e quando fala, acerta geralmente o ponto-
chave. A gente brincava dizendo que escolher Neurologia foi
quase um destino natural. Depois que ela desistiu da Oncologia
pelo peso emocional, percebeu que precisava de uma área em que
sua inteligência pudesse brilhar sem a destruir por dentro. A
Neuro foi a escolha perfeita. Milla tem um fascínio indescritível
pelo cérebro humano e fala disso com brilho nos olhos.
É nostálgico lembrar…
Quando fazíamos algo que a irritava, ela nos ameaçava dizendo
que, um dia, abriria nossas cabeças para estudar nossos cérebros.
Affs. Macabra, né?
Eu sempre ria dessa piada acho que era uma piada. Espero
que sim.
Sthela costumava arregalar os olhos azuis de maneira
exagerada. Era divertido, admito. Bons tempos.
Sua mãe nos disse que você está doente. Não sei ao certo o
quanto você está doente a ponto dela ter que nos contar e não
você. Isso tudo me parece muito estranho. Porque isso, amiga? Eu
simplesmente não entendo… Ela não disse muita coisa, na
verdade divaga Milla, com o dedo indicador no queixo. Mesmo
na videochamada, sou capaz de ver as tatuagens de ramos de
lavanda contornando seus dedos. Onde você está agora,
Elizabeth?
Sua voz se eleva, um tom mais agudo.
Observo Sthela, que está com aparência de alguém exaurida
mental e fisicamente. Essa conversa não é saudável para ela.
— Estou em um hospital — respondo, em voz baixa e contida.
Sinto o meu lábio inferior tremer sem parar. Ótimo.
Sei que esse lugar é um hospital. Passo, em média, 60% do
meu dia neles para não reconhecer um.
Ah…
Preciso ir com calma. Devagar. Por mim. Por elas.
Ela suspira pesadamente e remexe no piercing do lábio inferior
— um comportamento típico de quando está nervosa.
— Passo muito tempo em contato com enfermeiras também.
Ela amarra os cabelos crespos em um coque desajeitado.
Quando faz isso, sei que chegou a uma conclusão. Adora fazer esse
movimento nas suas defesas de pesquisas científicas, que eu e
Sthela já tivemos o prazer de assistir.
E posso afirmar com segurança que estou mais do que
familiarizada com… Seus olhos dobram de tamanho
procedimentos padrão de… quimi…
Ela quis saber em qual sala, ou melhor, em qual ala você está
— interrompe Sthela.
Então nossos olhos se encontram, dizendo milhões de coisas em
poucos segundos.
Fico catatônica, de novo. Se transformou em algo corriqueiro,
ao que parece.
— Esmay, por favor. Para — exige Sthela.
— Parar?
— Sim.
Ela se remexe, ajeitando a postura na cama. Um gemido escapa
de sua garganta, e ouço o miado de Cato, que agora está perto
dela, empoleirado em suas pernas. Vejo a pontinha do rabo
rajado.
— Não precisa tentar disfarçar — aconselha Sthela.
Eu me contorço na poltrona, ansiosa. Nervosa.
— Eu não…
Sim, você está. E eu, como alguém que sabe o que é, posso te
adiantar: isso não funciona. Não mesmo.
Ela tosse, levando as mãos esguias ao peito. Outro gemido.
A enfermeira me encara, com as sobrancelhas franzidas. Ela
não aparece na ligação e não tenho como fazer isso seguir por
outro rumo.
Ela murmura um “sinto muito” baixinho e então se move para o
campo de visão das minhas amigas. Fala quase num sussurro
humana, sensível:
Prontinho, Esmay. Vou fazer o encerramento da infusão e
retirar o acesso do seu Port, tá?
Minhas amigas me observam em silêncio. Em seguida, Simone
higieniza o local com técnica precisa e faz o flush com soro
fisiológico para garantir que o cateter fique limpo. Em seguida,
posiciona os dedos com firmeza.
— Pronto, respira fundo — orienta, com voz suave.
Sinto uma pressão rápida e, num movimento seguro, a agulha
sai. Odeio essa parte às vezes. Ela aplica uma leve compressão
com gaze estéril e coloca um curativo pequeno.
— Seu Port-a-Cath ficou perfeito hoje, sem nenhuma resistência
comenta com um sorriso gentil. Olho para Milla e Sthela e vejo
o queixo das duas praticamente no chão. E lembra: em casa
você não precisa mexer no Port, tá? Nada de limpar, manipular ou
trocar curativo sozinha.
Eu sei. Isso é sempre com eles. E, mesmo que eu quisesse, não
conseguiria. Não sou boa com isso.
Assinto com a cabeça, com um sorriso fraco. Ela retribui e vai
embora.
Meu corpo começa a pesar com a fadiga típica da quimioterapia
e o enjoo persiste.
Maldita Dacarbazina!
— Me desculpa — sussurro, com a cabeça baixa.
Meu vocabulário agora se resume a apenas uma coisa: “me
desculpa”, pelo visto.
— Ah, meu Deus! Não… — diz Milla.
Sua mão livre a que não está ocupada segurando o celular
cobre os lábios no mesmo instante, abafando uma sucessão de
“ah, meu Deus”, enquanto seus olhos se arregalam como nunca vi.
Nem mesmo quando ela abriu o ateliê de macaron, que
funcionava no quarto vago do nosso antigo apartamento, e no
primeiro dia de vendas recebeu tantas encomendas no iFood que
prometeu pagar um jantar para nós três no nosso restaurante
preferido.
Como eu não percebi isso? Como? Eu sou a pior amiga
médica que existiu na face da terra! grita. Eu… estava tão
ocupada com a minha própria vida e os meus problemas que não
fui capaz de perceber que…
Milla começa a andar em círculos, sabe-se onde ela está. O
lugar ao fundo é repleto de peças de artesanato, quadros de
paisagem pintados a óleo, prateleiras com livros e velas
aromáticas. Bem a cara dela mesmo.
Você não sabia, Milla. Como poderia? Eu menti sobre…
soluço, e as lágrimas começam a ganhar forma nos meus olhos
castanhos. A visão embaçada e o choro engasgado me fazem
entrar em desespero. Me desculpa! Eu sou uma amiga horrível,
uma mentirosa, uma egoísta… então, se vocês…
— Esmay — diz Sthela.
quiserem me odiar pelo resto de suas vidas e não
suportarem mais o peso que é a minha amizade, eu vou
entender…
Elizabeth… é a vez de Milla me chamar, com uma voz
chorosa.
— Porque eu sou chata e esquisita e às vezes não sou do tipo que
gosta de falar sobre sentimentos. E, se as pessoas me achavam
um pé no saco antes, e preferiam a amizade de vocês à minha, vão
se surpreender com o quanto eu aumentei ou melhor,
quadrupliquei meu nível de antipatia por pessoas, por
conversas profundas…
Estou depressiva, eu acho.
Não. Tenho certeza.
— Elizabeth.
Milla chama meu nome mais uma vez. Eu pareço não me
importar, mas me importo. Muito.
Solto uma risada fraca que faz minha garganta arder. Meus
lábios tremem copiosamente. Olho pela janela e, enquanto vejo a
chuva molhando o jardim de rosas, sinto as lágrimas molharem
meu rosto. Sinto-me como uma rosa sendo encharcada por essa
água salgada. Uma rosa, com espinhos e tudo.
Então, se quiserem me odiar, eu juro que vou entender
finalizo com a voz rouca e a garganta dolorida. Minha cabeça gira
e, graças a Deus, estou sentada. Minhas pernas estão moles,
bambas, como geleia.
Elizabeth, você não precisa se desculpar. Nós somos suas
melhores amigas. Somos uma equipe, não somos? pergunta
Milla.
põe pra fora, amiga. Dessa vez é Sthela quem assume a
conversa. — Já chega de se esconder, Esmay. Diz.
Eu tenho câncer.
Foi rápido.
Quando eu disse.
Primeiro veio o medo e a ansiedade, por pensar que elas
poderiam se sentir magoadas por eu esconder o diagnóstico por
tanto tempo.
Elas demonstraram várias expressões faciais em um curto
espaço de tempo: susto, medo… até beirou um ressentimento por
alguns segundos, e então eu vi. Estava lá, naquelas duas faces.
Nos olhos azuis de Sthela, no rosto delicado de Ludmilla: ambas
compreendiam minha escolha. Não havia pena, nem raiva. O que
havia era a representação clara do mais genuíno amor. Havia
compaixão e gentileza — as duas ao meu alcance.
Como pude ficar tanto tempo sem isso? Como pude pensar que
conseguiria enfrentar essa luta sozinha?
Afinal, as mães sempre têm razão.
Eu preciso das minhas duas pessoas preferidas.
Para alguém que não gosta muito de pessoas, percebo agora: eu
preciso do apoio, da força e da companhia das minhas duas
melhores amigas.
Na verdade, sempre precisei.
CAPÍTULO CINCO
Que letra de música horrível
“Sozinho aqui na cozinha, sinto que falta algo. Eu imploraria por perdão. Mas
implorar não é minha praia.”
Up The Junction — Squeeze
UM ANO ATRÁS
Mortas de fome.
Fome por macarons. Coisa fina. Eu e Sthela éramos isso: duas
mortas de fome por aqueles biscoitinhos coloridos, rechonchudos
e deliciosos que nossa brilhante amiga Ludmilla produzia no seu
tempo livre, entre ser uma heroína da medicina e da neurologia,
uma atleta, melhor amiga e uma maluca fissurada por alta
confeitaria. Chique.
Que droga! Vocês vão acabar com todos os macarons antes
mesmo de eu finalizar o recheio? Parem já, as duas!
repreendeu Milla, entre dentes.
Eu e Sthela prendemos a respiração por alguns segundos, nos
encarando. No entanto, era inevitável. Uma guerra de recheio de
chocolate começou, porque as duas cuspimos tudo o que
estávamos mastigando, tentando segurar a risada.
Vocês são duas idiotas! Milla chacoalhou as mãos e
apertou o laço do avental. Vão sujar todo o meu ateliê desse
jeito. Cuspindo todo o recheio uma na outra. Vocês são nojentas.
Um quilo desse chocolate que vocês estão deliberadamente
cuspindo — fiquem à vontade, aliás — custa mais de cem reais!
Eu e Sthela continuamos nos encarando, as bochechas inchadas
de tanto segurar o riso.
Sabiam? — perguntou, a ninguém em especial.
Ah! Suas duas riquinhas de merda! esbravejou, indo em
direção ao fogão para mexer o recheio de morango que estava
fazendo.
Ei! Assim você me magoa digo, rindo, levando uma das
mãos ao peito e fazendo cara de dor. Poxa! Não precisa ser
assim tão malvada.
Milla revirou os olhos e bufou, segurando uma colher de pau
que, por Deus, eu esperava que não acertasse nossas cabeças.
Sthela e eu nos encaramos e, dois segundos depois, caímos na
risada novamente.
Milla é chata e mandona quando o assunto é o seu ateliê de
macaron.
Vocês são nojentas repetiu Sthela, imitando o jeito
mandão e inflexível de Milla falar. Ela fez um biquinho enquanto
dizia, esnobando Milla: — Vão sujar todo o meu ateliê desse jeito!
Milla fechou a cara no mesmo instante.
Se vocês não pararem de encher o meu saco, vou expulsar as
duas daqui.
A gente mora aqui, esqueceu? Sthela protestou, revirando
os olhos.
Reprimi uma risada. Essas duas…
Quero acabar as minhas produções hoje o mais rápido que
conseguir. Tenho prova da Liga de Neurologia amanhã. É um
absurdo o tanto de coisa que eles cobram.
Ela soltou um suspiro demorado e nos encarou com o olhar
mais fatal que tinha guardado.
e se as duas idiotas continuarem a bagunçar o ateliê,
estragarem o recheio de chocolate fazendo guerra de cuspe e
comerem os macarons que eu coloco na bancada… Ah, eu juro:
vou matar vocês eu mesma, abrir as suas cabeças de vento,
estudar seus cérebros e depois doá-los para a evolução da ciência.
Milla é tão inteligente e macabra. Na mesma medida.
Rá! pulei em sua direção e ela se encolheu, assustada ou…
brava. Os dois, quem sabe? Viva a ciência, as mulheres nas
áreas STEM e todo o avanço da neurociência! gritei, com as
duas mãos levantadas, enquanto Sthela apenas sorria da cara
engraçada que Milla fazia. O quê? Pode fazer o que quiser com
meu cérebro, amiga. Eu sou a maior defensora da ciência neste
recinto.
Ela ergueu uma sobrancelha, ao passo que Sthela falou algo
como “ui, Milla”, sorrindo.
Pigarreei depois de Milla dar dois passos em minha direção com
os seus 1,80 metros de altura contra os meus 1,57 metros. Droga!
Recuei um passo e ela avançou mais dois. Assustadora.
Não antes de você corrigi. Eu quis dizer que sou a maior
defensora da ciência, depois de você. Claro!
Você se acha bem engraçadinha, não é, Elizabeth?
perguntou Milla, com a panela fumegante de recheio de morango
em uma das mãos.
O vapor da panela se misturava ao ar frio do ateliê. O aroma
doce do morango inundou minhas narinas, assim como o cheiro
cítrico do limão que ela havia espremido para rechear uns
macarons em tom de verde-oliva. Lindos e saborosos.
Espero que ela deixe a gente lamber a panela depois.
Não acho, não provoco. Na verdade, eu sou bem sem
“gracinha”.
Ah, resmungou Milla, ao que Sthela completou:
Esmay, você é engraçada, sim. Seu senso de humor não é forçado,
é só… excêntrico.
Dei de ombros, divertida.
Milla me dirigiu um sorriso sarcástico e retomou a produção de
macarons, que daqui a algumas horas teria que assumir o papel
de heroína da medicina de novo. A nossa heroína. Uma vida
puxada, uma rotina apertada, mas que eu sabia que ela amava.
Beleza, é o seguinte disse Sthela, sentando no banco de
madeira maciça e apoiando as mãos no balcão em que estavam
dispostos os macarons em diferentes tons. Minha cor preferida,
sem dúvidas, eram os macarons com sabor de limão. Eles tinham
um tom de verde, e essa é minha cor favorita. A gente quase
terminando a faculdade e eu acho que está na hora da gente
bolar um plano.
— Um plano? perguntei, enfiando na boca um macaron verde
e soltando um suspiro demorado. Mesmo sem o recheio, estava
muito gostoso.
Milla me direcionou um olhar do tipo “vou te matar se pegar
mais um”, e eu fiz um bico, fingindo estar triste.
Sentei-me no banco do outro lado da bancada, de frente para
Sthela, que se revezava entre acessar o Spotify e mudar a música
que estávamos ouvindo e escolher qual seria o próximo macaron
que iria devorar. Milla seguiu recheando-os e resmungando uma
coisa ou outra sobre como ainda faltavam muitos para ela
produzir.
Tira a mão, Sthela! reclamou Milla, ao que Sthela deu um
muxoxo e um dar de ombros, teatral.
Ela deveria seguir carreira de atriz em vez de ser diretora, aliás.
Mas era o sonho dela e também o meu. Sonhávamos em sermos
parceiras em grandes projetos que nos fariam ficar muito famosas
como diretoras de cinema. Ah… não é impossível. E, mesmo que
meus pais tenham muita grana o suficiente para não saberem o
que fazer — dinheiro não compra talento, compra oportunidades.
O talento, já tínhamos. Faltava a oportunidade.
Você está com os cotovelos praticamente grudados nos
macarons de morango!
Não não, sua chata. Caramba! exclamou Sthela. E
“praticamente” não é “totalmente”. Tem uma grande diferença,
sabichona.
sim retrucou Milla. Meu Deus! Essa minha produção
de hoje não está nada higiênica. Sério. Culpa das duas.
Nossa? — falamos em uníssono.
Milla revirou os olhos e passou a língua pelos dentes.
Adorava aquele apartamento, aquele quarto reserva que servia
de ateliê e o cheiro dos macarons, que podíamos comer quantos
quiséssemos nos dias em que Milla não estava de mau-humor.
Óbvio. Era tudo perfeito. Nossa vida era perfeita.
— Voltando ao assunto, Sthela.
Ela me encarou com um sorriso enquanto roubava um macaron
rosa da bancada. Milla acertou um tapa em sua mão e ela quase
engasgou, com o susto. Coitada.
Esse tal plano seria sobre o quê exatamente? perguntei,
curiosa. Eufórica.
Sobre continuarmos a morar juntas respondeu ela, com
um sorriso brilhante, de orelha a orelha, enquanto dava a
primeira mordida no macaron que havia roubado.
Seus cabelos pretos e lisos estavam com um novo estilo: um
corte Hime Cut um estilo de cabelo japonês tradicional que
dispunha de franja reta na altura das sobrancelhas e mechas
laterais curtinhas, na altura do queixo, contrastando com o resto
do cabelo, que continuava longo. Uma hora ou outra, ela sacudia
os cabelos como uma cantora de rock famosa. Ela continuou:
Quero continuar morando com vocês. Mesmo depois da
faculdade. E aí, topam?
Eu e Milla nos entreolhamos e depois olhamos para Sthela. Dois
segundos depois, nos entreolhamos de novo.
— O quê? — indagou Sthela, de olhos semicerrados.
Rugas quase imperceptíveis se formaram ao redor dos seus
olhos azuis, e as sobrancelhas escuras arqueadas deixaram o
motivo da sua expressão ainda mais óbvio: insatisfação.
Não acredito que, em um grupo com três pessoas que
prometeram amizade eterna e essa ladainha toda, eu fui a única
que pensou a respeito.
Eu também havia pensado muito a respeito. Não queria me
separar das minhas duas melhores amigas. Mas, depois que a
faculdade chegasse ao fim, trilharíamos rumos diferentes: Milla,
com toda certeza, continuaria avançando na sua carreira de
médica e fazendo especialização em neurologia e, quem sabe, até
pós-graduação. Teria uma jornada árdua pela frente, na qual teria
que abdicar de muitas coisas. De uma coisa eu sei: ela não
abdicaria da nossa amizade.
Sthela tinha planos de mudar para São Paulo, porque haveria
mais oportunidades para a nossa área. Convenhamos, cinema não
é como direito ou medicina, que você consegue se virar em
qualquer lugar e arranjar um emprego. Precisaríamos estar em
um estado onde fosse mais viável trabalhar com isso.
Ir em busca de oportunidades.
Como eu disse, modéstia à parte, de talento nós entendíamos.
Éramos resilientes, nos arriscávamos em nossos projetos,
tínhamos originalidade, estilo próprio e muita dedicação. Mas
isso não era o suficiente. Para ser artista no Brasil, você precisa
sempre de mais. Mais visibilidade, mais público, mais coragem
para ter sucesso ou fracassar e, principalmente, mais e mais…
oportunidade.
Não queria ter que depender da grana dos meus pais por mais
tempo. que, se eu quisesse sobreviver depois da faculdade com
um bacharelado em cinema e audiovisual… sejamos sinceros:
teria que continuar recebendo a ajuda deles. Assim como Sthela,
que também recebia ajuda financeira dos pais.
Não é uma ideia digo, por fim. As duas me encaram,
ansiosas pela minha opinião. Eu poderia falar com o meu pai…
Se quiséssemos morar mesmo em São Paulo, ele poderia nos
arranjar um apartamento semelhante a esse lá. Meu pai tem
muitos contatos. E a gente não precisaria se preocupar com a
grana nem com alimentação…
Esmay… Milla me interrompeu, desamarrando o avental
da cintura e tirando os cabelos escuros e volumosos da sua
toquinha branca. somos adultas. Eu sou adulta. Não
pra ficar dependendo da generosidade dos seus pais. A gente tem
que conseguir se virar. Sozinhas.
Concordo.
Mas como eu e Sthela faríamos isso finalizando um curso que
não tem muito mercado no Brasil? Sim, Milla não tem culpa de
termos cursado cinema em vez de algo que desse grana rápido.
Mas era o nosso sonho. que até eu sabia que sonho não
colocaria comida na nossa mesa.
A gente pode trabalhar enquanto não consegue algo na nossa
área sugeriu Sthela, e eu aquiesci com a cabeça. Milla levantou
uma sobrancelha. — Eu não tenho problemas com isso.
Nem eu. de boa com isso complementei, encarando
Milla, que olhava de mim para Sthela com uma cara que dizia “me
engana que eu gosto”. Tudo bem. É compreensível. A gente
pode se virar sozinha. Nós podemos fazer isso.
Certo. E de quê exatamente as duas princesas vão trabalhar
em São Paulo? Em algum shopping como vendedoras, na Crocs,
ou será que fazendo Subway? Ou talvez queiram trabalhar na
praça de alimentação servindo mesas?
Nós não respondemos.
Sério, meninas! Vida de CLT não é pra vocês. E outra: seus
pais têm grana. Usufruam disso a favor de vocês a todo custo. Mas
não precisam estender isso a mim.
Não é esmola, Milla argumento, irritada. Ela baixa os
olhos. Meu pai nos ajuda porque ele é assim e quer o melhor
pra mim. Mas não pense nem por um segundo que isso não se
estende às minhas amigas. Que não se estende a você.
Ela ainda não estava me olhando. Encarava um macaron
rechonchudo, em tom azul-bebê, que havia ficado um pouco
disforme nas laterais. Em um mundo repleto de macarons lindos
e perfeitos, ele era a maçã podre, triste e defeituosa. Sozinha.
Milla era extremamente perfeccionista, e eu sabia que esse
macaron não seria vendido para os seus clientes. Ela daria um
jeito de se livrar dele.
Pega disse ela, oferecendo-me o macaron defeituoso e
solitário. — Para você. Come!
Estendi a mão para pegá-lo, ainda encarando minha amiga, que
permanecia com uma expressão indecifrável. A música que
estávamos ouvindo parou poucos minutos. O silêncio durou
alguns segundos, e meus sentidos se aguçaram ainda mais. O
silêncio costumava fazer isso comigo. Deslizei os dedos pelas
laterais desajeitadas do doce e senti as deformidades em contato
com a minha pele. Inspirei o aroma agradável dos macarons que
estavam quase prontos no forno, e o cheiro adocicado de morango
ainda parecia preencher cada superfície daquele cômodo da casa.
Era agradável aquela sensação. Gostosa.
Mordi o primeiro pedaço e senti o sabor açucarado e delicado
inundar o céu da minha boca.
— Obrigada. — Ela sorriu. — Isso é uma metáfora, por acaso?
Quê? Sthela ergueu uma sobrancelha se enfiando na
conversa.
Milla continuava a me encarar, com as mãos fechadas em
punho no balcão repleto de doces. Séria e muito calada.
Você não é defeituosa, Milla. Para de bobagem e deixa a
gente se ajudar. Não precisa ser durona o tempo todo. Eu quero
declarei, com os olhos brilhantes e um sorriso. Quero continuar
morando com vocês até o momento em que cada uma construa a
sua família.
Ela abriu a boca para falar. Pensou por alguns segundos…
nervosapracaramba. Sei que ela está, sim, nervosa. Ela havia
remexido no piercing do lábio inferior um zilhão de vezes, e os
dedos longos tamborilavam no balcão sem parar. O ápice da
inquietação em pessoa.
— É isso que vocês querem, de verdade?
Milla olhou de mim para Sthela, e nós consentimos.
Tem certeza de que o seu pai concordaria com isso, Esmay?
indagou ela, ainda encarando os macarons como se eles
pudessem responder por mim. Digo… comigo e com a Sthela
morando em São Paulo, dividindo apartamento com você… e
sendo, sei lá… sustentadas por…
Milla a interrompi, suave. Meu pai não é esse tipo de
pessoa, sério. E ele não vai sustentar ninguém. Ele vai dar uma
ajuda inicial, um empurrãozinho. Chame do que quiser. Mas não
vai bancar o nosso futuro nem pagar as nossas contas pra sempre.
Ela respirou fundo.
E você sabe que a gente vai trabalhar, né? perguntou
Sthela rapidamente.
Com o quê? Ela franziu as sobrancelhas e pressionou os
olhos com a palma das mãos. De verdade, gente. Não quero
iludir vocês. Vida de CLT não é simples.
Sthela cruzou os braços, séria:
— A gente começa de baixo, como todo mundo.
E onde? Milla insistiu. Em São Paulo tem trocentas
meninas com diploma, igual a vocês, procurando um trabalho.
Sim, de fato concordei. Mas tem agência grande,
produtora grande, festival, edital, Netflix, Amazon… Olha, aqui
em Juiz de Fora e BH não tem metade disso, amiga.
Dessa vez, Milla me encarou. Um pouco tensa demais para o
meu gosto.
Além disso… continuou Sthela o pai da Esmay pode
ajudar a gente a investir no nosso primeiro curta. Ele prometeu
que, quando chegasse a hora, nos patrocinaria. Meu pai também
pode ajudar. E não seria ele bancando a nossa vida, mas um
projeto. Um só. Ela sorriu, e os olhos brilharam. O pontapé.
A gente faz o curta, entra em festival, cria portfólio. A gente
consegue, não é, Esmay?
Eu assenti.
É assim que funciona no audiovisual, Milla. Todo mundo
começa produzindo um curta pra existir no mapa. Não é
demérito, sabe… ter um patrocinador.
Milla apertou os lábios e, num movimento furtivo, levantou-se
do banco onde estava, recolocando a sua touca nos cabelos
volumosos para voltar ao trabalho.
— E eu? Onde entro nessa equação?
Você entra em São Paulo eu disse, sorrindo de canto e me
levantando também. Porque as melhores residências de
neurologia do país estão lá.
É, Milla Sthela também se levantou, fazendo barulho com
o banco. Você mesma vive dizendo isso. USP, Paulista… Não é
basicamente, sei lá, seu sonho?!
Ela piscou, surpresa e eufórica na mesma medida.
Eu sei que você consegue passar quando prestar a prova pra
residência — pontuei.
— Claro que consigo. Eu sou brilhante, não sou?
Sim. Ela era brilhante.
— Ok. Vocês têm razão. Faz sentido… ficar com vocês.
Meu peito aqueceu.
Então… é isso. Vocês duas podem tentar emprego em loja,
shopping, restaurante… qualquer coisa até conseguirem entrar
em alguma produtora.
Sthela deu risada enquanto mudava a música no Spotify.
Eu preferiria morrer a trabalhar na praça de alimentação do
Morumbi, mas, né? O capitalismo obriga.
— Eu não tenho frescura — disse, e ela balançou a cabeça.
Milla respirou fundo e correu na direção do forno para retirar
os macarons que estavam prontos. O cheiro que veio dessas
belezinhas… uma delícia.
Tá. Se é isso mesmo que vocês querem e se estão dispostas a
batalhar mesmo, eu topo!
O sorriso que brotou no rosto de Sthela e que se refletiu no meu
foi automático, quase infantil. Sthela contornou o balcão e correu
em direção a Milla, que havia colocado a travessa de macarons
recém-assados no balcão.
— Quero continuar com vocês, meninas — sussurrei. — Até cada
uma construir a própria família.
Milla pegou um macaron, perfeito dessa vez, e colocou na
minha mão como se fosse um pacto.
— A gente vai juntas. Para São Paulo.
Sthela mexia no celular, distraída, até soltar um “ai, meu
Deus…” baixinho.
Ela virou a tela para a gente.
O Spotify mostrava o início familiar no teclado de “Up the
Junction”.
— Lembra, Esmay?
Ah, meu Deus! “Up the Junction”! gritei. Faz muito
tempo que não ouço essa música.
Sorri de um jeito engraçado e Sthela sorriu de volta.
Lembra a primeira vez que a gente ouviu, Sthela? Aquele seu
ex esquisito te convidou pra ver o ensaio da banda dele em uma
garagem.
Ele pensou que isso seria descolado. Eu quis morrer aquele
dia. Ele era péssimo, Esmay! disse balançando a cabeça e
abafando uma risada. Cantava e tocava muito mal. Porém,
tinha um excelente gosto musical. Nem tudo é perfeito.
Assenti com a cabeça achando graça.
Eu amo a voz desse cantor… É tão nostálgica. Essa música é
estranha de um jeito muito, muito bom.
Que música de letra esquisita disse Milla, com um sorriso
cansado nos lábios. — Gostei.
O cara perde tudo e fica sozinho por fazer escolhas ruins
pontuou Sthela gesticulando freneticamente. A letra é bem
melancólica, e a vida dele é cheia de reviravoltas… todas ruins.
Sim. Deixa tocando. Não tira, não — pedi.
Fechei os olhos, e a melodia da música me teletransportou para
outro lugar. Senti uma paz que nunca havia sentido. Foi bom.
Respirei fundo, como se essa sensação tivesse destravado
alguma coisa dentro de mim.
Então é isso, né? disse Sthela. A gente não vai deixar
ninguém… up the junction. Nunca! Seremos sempre a válvula de
escape umas das outras.
E, naquela frase, eu senti: era um pacto. E era sério.
CAPÍTULO SEIS
Essa é a pele de um matador, Bella
“Eu não posso carregar isso por você… mas posso carregar você.”
— O Senhor dos Anéis
— Fala sério, Sthela!
— Quê?
A gente devia procurar outra coisa pra assistir que não sejam
essas porcarias sem sentido com sanguessugas pálidas e que
brilham sob a luz do sol diz Milla enquanto suga o canudo do
seu chá gelado.
É. Milla tem razão, como sempre. Mas Crepúsculo é a saga de
filmes predileta de Sthela. Droga! O que eu posso fazer? Só… me
torturar assistindo pela centésima vez. Porque é isso que boas
amigas fazem: permitem que os seus olhos sangrem assistindo a
essa esquisitice que é Crepúsculo.
— Cala a boca, Milla! — repreende Sthela, com uma voz áspera e
fraca. Como sempre, suas opiniões sobre Crepúsculo são de
muito mau gosto.
— Vampiros… que brilham? Quem teve essa ideia e pensou logo
em seguida: “É. Acho que vampiros que brilham sob a luz do sol,
ao invés de vampiros que entram em combustão e morrem, seria
muito mais interessante”?
Stephenie Meyer talvez?
— Eu sei quem escreveu Crepúsculo, Elizabeth.
Ah! Tudo bem. Só pra conferir.
— Pelo amor de Deus! É patético! — grita.
Infelizmente, Bram Stoker deve estar se revirando no túmulo
neste exato momento. Coitado.
Brilham como fadas digo baixinho, enquanto remexo na
barra da calça jeans.
Quê? pergunta Sthela. Não, Esmay… você também não.
Não se deixe contaminar pelo mau gosto da Milla.
Rá! Parece até piada. Você é de Crepúsculo e a pessoa com
mau gosto sou eu?
Ergo uma sobrancelha para fazê-la fechar o bico. A luz do
quarto de Sthela está fraca, o ambiente sendo iluminado apenas
por alguns piscas-piscas com luzes em tom amarelo para compor
a decoração minimalista de natal do quarto dela. Mesmo não
estando tão claro quanto eu gostaria, sei que Milla consegue ver a
carranca no meu rosto.
Entretanto, isso não é o suficiente para fazê-la calar a boca.
Vampiros não deviam ser assustadores? pergunta a
ninguém em especial, enquanto gesticula freneticamente com as
mãos. Seu anel de besouro brilha no escuro. Isso é uma
vergonha. Sério! Não a fim de assistir a Crepúsculo pela
milésima vez, Esmay.
Sthela pigarreia baixinho e se força a dar um sorriso, divertida.
Você é sempre do contra, não é? debocha, e Milla ergue
uma sobrancelha escura. Sempre reclamando. Sempre. Seu
nome devia ser Maria das Dores.
Ela adora ser a protagonista! completo, e Milla se contorce
ainda mais, o rosto transformando-se em uma careta estranha.
A vez de escolher o filme é da Sthela. É assim que funciona a noite
do cinema democrático.
— Ah, fala sério! — resmunga Milla, e eu a encaro, séria.
Aliás, não foi você quem escolheu esse nome? querendo
mudar o nosso regime para uma ditadura, por acaso? — pergunto.
É, sua fascista! concorda Sthela, e eu abro um sorriso
largo.
Milla não responde, mas revira os olhos como nunca a vi fazer
antes. Tão dramática.
— Caramba! Certo. É a vez de Sthela escolher, eu sei. Mas, ainda
assim, segue sendo um filme horroroso e, apesar de você cursar
cinema aponta o dedo indicador na direção de Sthela —, isso
não te impede de ter um péssimo gosto pra filmes.
Pega leve com ela digo, e ela sorri descaradamente,
mostrando os dentes.
Claro. Porque você e os seus filmes eróticos são muito
melhores, não é, Milla? retruca Sthela, e eu reprimo um
sorriso.
— Uau! Você é tão…
Incrível? interrompe Sthela, e Milla faz uma careta,
levantando o dedo do meio.
Tão infantis.
Ok. É o seguinte: chega dessa discussão idiota e sem sentido.
As suas predileções cinéfilas não vão mudar em uma noite, então
isso gesticulo na direção das duas é contraproducente. Não
adianta. Me viro na direção de Sthela: A gente pode assistir
aos seus filmes.
Ela me encara, e seus lindos olhos azuis brilham, mesmo
estando tão escuro.
— Só… por favor. Vamos assistir à Lua Nova?
Sim. Eu prefiro o Jacob. Um milhão de vezes, e isso não é uma
hipérbole.
— Não suporto mais a cara de fome do Eduardo.
— É Edward.
— Eu sei.
Dou de ombros e lanço um sorrisinho cúmplice na direção de
Milla, que leva as mãos aos lábios, abafando uma gargalhada.
Tudo bem assistir a Crepúsculo e ver todas as cenas
constrangedoras, como a de Bella encarando Eduardo esquisito
cara de fome Edward, ou a cena ridícula em que ele diz: “Essa é a
pele de um matador, Bella” Ok. Tudo bem assistir a isso. Eu
aguento. Mas, hoje não no clima. Prefiro que o Jacob tenha um
tempo de tela.
Sthela está com o controle na mão, navegando pelo catálogo da
Netflix, procurando o seu filme preferido da vida. Seus dedos
longos digitam com dificuldade, e, quando ela demora mais
alguns segundos para achar a vogal “o”, que completa a palavra
Crepúsculo, eu a ajudo, tirando gentilmente o controle de suas
mãos geladas.
— Tudo bem — digo. — Deixa comigo, amiga.
Ela sorri.
Seus olhos se fecham quando ela tenta mudar a posição em que
estava, levantando um pouco mais a cabeça. Seu gatinho, Cato,
está empoleirado entre ela e Milla, ronronando e se lambendo
hora ou outra. Ele não sai do lado de Sthela, nem mesmo
enquanto ela dorme. Parece que são feitos da mesma matéria.
Metade um do outro.
Ela tenta achar uma posição mais confortável, e alguns gemidos
abafados escapam de sua garganta. Eu e Milla tentamos ajudá-la
ao mesmo tempo. que eu me sinto um pouco exausta da
quimioterapia. Ultimamente, tenho tido falta de ar e tosse seca.
Isso me deixa irritada. Milla me lança um olhar que diz “deixa
comigo. Relaxa, eu faço isso”, e eu aquiesço com a cabeça e
murmuro um “obrigada” para ela, que retribui com um sorriso.
Milla consegue ajudar Sthela a achar a posição que procurava, e
ela agradece.
A condição de Sthela piorou muito nos últimos dias.
Mesmo tendo sido quase impossível para Milla vir para Belo
Horizonte nos visitar, ela fez o que pôde. Largou os conteúdos que
precisava estudar e diversas outras coisas da sua vida corrida em
Juiz de Fora. Eu havia falado com ela alguns dias, informando-
a de que a condição de Sthela estava se complicando, e ela não
hesitou em vir correndo nos ver e dar o seu apoio. Eu as amo
incondicionalmente. Somos as três, de novo. Estava com saudades
disso. De nós.
— E então… pode ser Lua Nova, Sthela?
Ela faz que sim com a cabeça, e ambas sorrimos.
— Ok. Vamos de Jacob ao invés de Eduardo!
— É Edward, sua engraçadinha.
— Eu sei — afirmo, dando de ombros. — Mas isso é irrelevante.
Sorrio.
Ela solta algo que pode se configurar como um grunhido
irritado ou até mesmo o barulho de algum animal raivoso e eu
não saberia dizer a quem pertence. Não importa. Ela parece
confortável, segura de si e é a pessoa mais resiliente que tive o
prazer de conhecer.
Eu sei, Sthela. Mas não consigo evitar tentar fazer você sorrir.
Mesmo exausta de lutar, você ainda é tão forte e corajosa. Amo
isso em você.
Amo mesmo.
Cansaço e tosse seca.
Esses dois se tornaram meus melhores amigos agora.
Caminham comigo enquanto dirijo, leio e releio alguns
projetos, ou quando tento subir as escadas da clínica oncológica
nos dias em que o elevador está cheio. Não chegam a me
derrubar, mas também não me deixam esquecer que estão ali.
Persistentes. Incômodos. Isso me atrapalha e também me irrita de
uma maneira com a qual não estou conseguindo lidar.
falou com o seu médico a respeito? pergunta Milla com
a boca cheia de bolo de cenoura, alguns dias antes da minha
consulta com o doutor Zhang. Não pode deixar passar nada,
Elizabeth. Ele é seu médico. Vai saber o que fazer.
— O que você acha que pode ser? — pergunto.
Ouço o barulho de um sino tocando e giro o rosto na direção da
entrada do café. Mais pessoas chegando, socializando. Dezembro
costuma fazer isso com todos.
Em cima do balcão de atendimento, meus olhos castanhos se
detêm em uma caixa vermelha com os dizeres: faça uma doação.
Logo abaixo, em letras menores: Dezembro pede gentilezas.
Mordo um pedaço do meu bolo de chocolate e bebo um gole do
suco de acerola.
Milla balança a cabeça e morde a parte interna da bochecha,
fazendo com que eu me encolha em minha insignificância. Tudo
bem.
— Sabe que não posso sair por aí dando diagnósticos ou fazendo
suposições responde, com as sobrancelhas franzidas e uma
expressão de cautela.
Ok. Ela tem razão.
Olho ao redor, e as pessoas estão felizes, vivendo suas vidas
plenas, com filhos e pets livres de qualquer preocupação infeliz. O
café Flor de Parênteses, que costumávamos frequentar nas férias
da faculdade quando vínhamos visitar nossos pais em BH, segue
idêntico ao de antes. A iluminação natural suave da manhã
entrando pela janela, o silêncio confortável, o aroma de café
passado na hora mesclado ao cheirinho de terra molhada. Ao
fundo, sem muito exagero, é possível ouvir a música Muda Tudo,
do Dani Black, cantor preferido de Sthela. Ela sempre pedia para
repetir quando tocava.
Eu e Milla estamos sentadas, uma de frente para a outra, numa
mesa de madeira reaproveitada belíssima, idêntica a todas as
outras espalhadas pelo salão. No centro da mesa encontra-se uma
muda de zamioculca, com as folhas num tom de verde brilhante, e
um pequeno livro de poesia, escrito à mão. No passado, eu, Sthela
e Milla passávamos horas declamando as poesias desse mesmo
livro para os outros clientes uma velha tradição que adquirimos
e fazendo os olhos de Laurina, a proprietária do café, se
encherem de lágrimas.
Ela é uma mulher baixinha, com noventa por cento do corpo
coberto por sardas. Entusiasta de poesia. Toca o café e cuida de
quase tudo sozinha. Ela se vira bem, porque faz tudo com zelo e
amor: desde a venda de seus exemplares de poesia até a rega, no
meio do expediente, das mudas de diversas plantas, como espada-
de-são-jorge, samambaias, orquídeas e suculentas todas
perfeitamente saudáveis.
Eu me recordo de tudo… exatamente assim.
A mesa comunitária perto das plantas, quase sempre repleta de
gente; as cadeiras que não são iguais, mas igualmente bonitas; o
cheiro do bolo de milho e dos doces; os vários tipos de bebidas
tudo parece igual. Talvez eu tenha mudado.
Milla estala os dedos na frente do meu rosto. Eu devia estar em
transe, porque ela continua mexendo a boca loucamente, o
piercing dourado no lábio inferior movendo e brilhando enquanto
fala coisas que não consigo ouvir. Foco, Esmay.
— Você não ouviu uma sílaba do que falei, não é?
Tento parecer ofendida, mas ela percebe.
Merda! Sempre tão observadora.
Eu perguntei se você concorda que a Jennifer Lawrence teria
feito uma Bella Swan melhor do que a Kristen Stewart em
Crepúsculo.
Ah… Nossa! Quê?
— Eu sequer sabia que… pigarreio. — Não fazia a menor ideia
de que ela havia feito teste para Crepúsculo finalizo, dando
mais um gole no meu suco.
Milla chacoalha as mãos e se força a engolir o bolo para falar
com a boca menos cheia.
Quem diria, hein? Ela levou um não em escala cósmica logo
de cara!
Não respondo. Continuo mastigando meu bolo, séria. Sem
graça. Depois, pego um dos inúmeros guardanapos com frases
motivadoras de Laurina e passo a brincar com ele.
— O que você tem? — pergunta ela. — Está estranha desde que a
gente chegou. Está preocupada com a Sthela ou com… você?
Milla suspira e limpa a boca usando um guardanapo coach com
a frase: “Não é hora para chorar. Você está vivo. Sorria.”
Abro um sorriso mostrando todos os dentes, para testar.
Continuo triste. Milla percebe e leva uma das mãos até a minha,
na intenção de me acalmar.
— Esmay… vai ficar tudo bem.
— Eu sei. Claro, me desculpa. É que… — murmuro, fazendo o
origami de sapo que finalizei poucos minutos pular de um lado
para o outro da mesa. Sthela que me ensinou. Neste mesmo café.
Em uma manhã igual a esta. Ela é fascinada por esses bichinhos
feitos de papel. Muito mais habilidosa do que eu jamais serei.
Obviamente.
O quê? indaga Milla suavemente. Seus olhos acompanham
os movimentos do pobre sapinho de papel.
Eu fico nervosa. Estou sempre nervosa, para falar a verdade.
E eu não sei se isso é só coisa da minha cabeça, mas parece que eu
não estou melhorando. Estou sempre cansada, sempre estranha…
eu…
Milla ergue uma sobrancelha.
É compreensível diz. Você está fazendo quimioterapia
com um coquetel de quatro drogas, Esmay. Seu corpo está
respondendo aos efeitos colaterais da medicação. É pesado
mesmo. Nada de novo sob o sol.
— Está tentando me matar, isso sim — resmungo, irritada.
Certo. Se isso te incomoda tanto, não pode deixar de relatar
ao velho.
— Não chama ele assim…
Ela sorri e me lança uma piscadela.
Tudo bem. Precisa contar tudo para o doutor Zhang Wei.
Melhorou?
— Não é como se eu me importasse muito, para falar a verdade.
Você sabe que ele é tipo uma lenda para mim, não é? Uma
referência. Meu sonho era ser orientada por ele na faculdade. Mas
justo quando chegou a minha vez de ser médica, o cara decide que
é hora de parar de lecionar. Sério! Sorte de quem trabalhou com
ele. Sabia que o doutor Zhang escolhia os mais brilhantes para
orientar? Quase ninguém conseguiu ter ele como orientador.
Ok. Parece que eu e você não estamos falando da mesma
pessoa digo, divertida. Ela revira os olhos. O doutor Zhang
é…
— O quê?
— Não sei… esquisito?
Gênios podem mesmo ser esquisitos, Esmay responde,
com uma entonação de quem está dando uma bronca.
Sei que sim. Mas, claro, ele é um excelente médico. Quanto a
isso, não posso reclamar. O doutor Zhang tem sido essencial no
meu tratamento. Ele me passa muita segurança — pontuo.
Ela assente com a cabeça, sorridente.
— Ele é tipo um dinossauro da medicina? — pergunto.
— No bom sentido da palavra?
— Isso.
Mais uma fatia de bolo de chocolate na boca.
— No bom sentido da palavra, Ludmilla. Claro. Para você e para
a comunidade científica, ele é tipo um gigante da medicina?
Sim. Ele é tipo um tiranossauro rex da medicina retruca
com um sorriso, enquanto se levanta e soquinhos no ar.
Espera… esse foi o maior dinossauro que já existiu, não é?
Ela tamborila os dedos na mesa da cafeteria, e sua xícara de
café tilinta suavemente. Dou mais uma mordida no bolo de
chocolate, não antes de ouvi-la falar com uma voz estridente:
— Não é? — insiste, ansiosa. — Do período Paleolítico, talvez?
Ah, meu Deus.
Arregalo os olhos, surpresa. Ok. Ela é brilhante em medicina,
mas história não é mesmo o seu forte.
Para a sua informação digo, levantando o dedo indicador
—, o maior dinossauro que existiu, conforme as evidências mais
aceitas atualmente, foi o Patagotitan mayorum.
Milla ergue uma sobrancelha, como quem diz “tá, mas como
você sabe disso?”.
— Ele foi um dinossauro herbívoro e viveu no período Cretáceo.
Ela ergue ainda mais a sobrancelha.
Ah, e para constar continuo —, o Paleolítico faz parte da
história humana. Dinossauros viveram muito antes, na Era
Mesozóica. Quando o primeiro humano apareceu, eles tinham
desaparecido havia milhões de anos. Misturar as duas coisas é
como confundir a Roma Antiga com a Segunda Guerra.
Certo diz ela, erguendo ainda mais as sobrancelhas.
Você é bastante esquisita, Esmay.
— Sempre gostei de estudar história — digo, dando de ombros.
Dou uma piscadinha, e ela sorri, intrigada.
— Eu sempre fui péssima em história — admite.
Não diga…
Não precisa humilhar brinca, me olhando nos olhos.
Mas, voltando ao assunto: não deixe de comunicar tudo o que está
sentindo ao doutor Zhang. Cada detalhe importa, Elizabeth.
Eu sei.
As tosses secas, sem catarro ou dor, que não melhoram com
água ou pastilha; a falta de ar ao subir escadas e pegar pesos
mínimos; um cansaço desproporcional, que não melhora com
descanso… Sem falar no desconforto torácico que sinto com
frequência. Um peso no peito que parece me sufocar às vezes.
Tudo isso vem acontecendo desde a segunda infusão do
primeiro ciclo de quimioterapia, de forma gradual. No começo,
achei que fosse só o acúmulo. O corpo cansando de lutar.
Mas esse tipo de cansaço me parece estranho. Não parece
normal.
A tosse não dói. Não arde. Não avisa.
O pior não é tossir. É perceber que subir um lance de escadas
virou um pequeno evento. Que preciso parar. Fingir que estou
olhando o celular. Respirar fundo como quem não quer chamar
atenção. Começo a suar frio, e quanto mais tento controlar a
respiração, mais parece que estou entre a vida e a morte. Tento
não pensar onde, exatamente, isso tudo está acontecendo dentro
de mim. É um inferno, e geralmente as pessoas percebem.
Oferecem ajuda, perguntam se estou bem e, como eu não possuo
nenhum senso de preservação, digo que sim. Que estou ótima.
Não sei por que meu corpo resolveu me testar assim agora.
sei que não era assim antes.
Na próxima consulta, vou comentar com o doutor Zhang. Nem
para reclamar mais para registrar. Como quem deixa uma
observação na margem de um livro.
— Relaxa, Esmay — tranquiliza Milla.
Eu sorrio de leve e volto a brincar com o sapinho de origami.
Meu coração aperta no peito. Não pode ser nada demais, não é?
— Vai dar tudo certo.
Eu sei — minto.
Não sei por que a gente ainda não falou a respeito… mas
vamos continuar com a nossa tradição de final de ano, certo?
Me remexo na cadeira inquieta. Não quero ter que responder
imediatamente, então levo à boca uma garfada generosa do bolo
de chocolate.
Nós vamos viajar no Natal pra Tiradentes. A gente pode
tentar levar a Sthela. Podemos falar com o Doutor Zhang. E eu
Milla bate o dedo indicador no queixo, devo dar para o gasto. E
aí? Está ansiosa?
Eu, ansiosa para o Natal? Acho que não… Tudo o que sinto
agora é medo, para ser sincera. Talvez o Natal deste ano não seja
tão divertido como foram os anteriores, afinal. Para alguém que
sempre adorou essa data comemorativa, estou muito para baixo.
Uma pena mesmo.
Fantástico! Sim. Isso é maravilhoso.
Hoje é um excelente dia para o elevador estar lotado. Sou
obrigada a pegar as escadas e aturar meu corpo praticamente
entrando em colapso por estar subindo alguns lances. Respiro
com dificuldade, e a impressão que tenho é a de que meu coração
está pegando fogo. Tento controlar a respiração e ouço meu
coração batendo forte nos ouvidos, como um lembrete de que
estou forçando demais meu corpo. Minhas pernas estão meio
moles, sem atender plenamente aos comandos do meu cérebro.
Ok, Esmay. não inventa de desmaiar agora, porque não seria
uma cena bonita.
Meu celular vibra no bolso da calça jeans, e paro por alguns
segundos, escorada no corrimão frio da escada. Respiro como
alguém que acabou de bater o recorde de uma meia maratona:
meio descontrolada, meio quase morrendo. Ultimamente, tem
sido normal.
O grupo do WhatsApp, As Três Mosqueteiras, está pipocando:
Milla: Esmay, você tá viva?
Sthela: Verdade. Tá sumida desde ontem. Tá aprontando o quê?
:)
Milla: Dá um sinal aí, Elizabeeeeeeeeeeth! Alô?
Esmay: Oi, meninas. Eu tava bem cansada ontem. Tô bem, mas
daqui a cinco minutos posso não estar!!! :(
Milla: POR QUÊ? PARA DE GRAÇA, ESMAY!
Sempre tão literais, penso.
Guardo o celular no bolso e volto a subir as escadas, vencendo
um degrau de cada vez, na esperança de evitar sair rolando escada
abaixo. Sinto meu celular vibrar mais algumas vezes, mas ignoro.
Mantenho os olhos bem atentos onde estou pisando e em quão
firme seguro o corrimão, me prendendo a ele como se minha vida
dependesse disso.
Ah… as maravilhas da quimioterapia. Cada dia que passa,
parece que venho me transformando em outra pessoa: tão frágil e
sensível.
Neste exato momento, me sinto frágil e sensível. Mas tenho
mantido o controle. O doutor Zhang me tranquilizou, afirmando
que o tratamento está correndo bem, que venho respondendo
bem a cada rodada de quimioterapia apesar de parecer que
meu corpo vem se deteriorando aos pouquinhos.
Olhei-me no espelho antes de sair de casa e pareço estar
exausta. Deve ser porque estou mesmo. Meu cabelo vinha
mostrando os primeiros sinais de alopecia, por isso o cortei na
altura dos ombros e passei a usar boné. Coincidentemente,
tenho muitos na minha coleção, que todo mundo decidiu que
eu gostaria de ganhá-los de presente no meu aniversário de vinte
e cinco anos, que aconteceu na semana passada.
Acho que vou deixar subentendido que, caso alguém queira me
presentear no Natal mesmo que este ano eu esteja sem ânimo
para comemorar —, não vou querer mais bonés. Sejam mais
criativos.
Endireito a coluna, ergo a cabeça e volto a subir as escadas.
Sinto minha cabeça girar, e uma única gota de suor frio desce pela
minha coluna, fazendo os pelos do meu corpo se arrepiarem.
Sinto-me fraca.
Ah, Deus!
Vou desmaiar… é isso?
Não consigo raciocinar muito bem. sinto uma desconexão
com meu corpo. A falta de ar persiste, insistente e bastante chata.
O peso que antes eu sentia pelo corpo agora não existe mais.
Sinto-me leve, flutuando. A mente, um borrão colorido. Sem
sentido.
Um ótimo dia para quebrar alguns ossos caindo deste lance de
escada, Esmay. Parabéns.
Então eu caio…
Espera.
Não.
Mãos firmes me pegam, me agarram, seguram minha cintura e,
logo depois, minha nuca, trazendo-me para perto de si. Seja
quem for esse “si”. sei que sinto seu cheiro e automaticamente
penso que esse “si” é alguém muito cheiroso. Sua pele tem cheiro
de lavanda e algo doce, sem ser feminino.
Penso que, se ele não estivesse ali, eu não estaria.
Meu cérebro está quase desligando, mas consigo pensar em
muitas coisas embaraçosas em um curto espaço de tempo.
As mãos firmes ao redor da minha cintura, sustentando meu
corpo como se a vida dele dependesse disso; os lábios próximos à
minha têmpora, fazendo com que o boné levante um pouco e
talvez revele a raiz caótica do meu cabelo, com os primeiros sinais
de alopecia; a voz grave e perfeitamente confortante quando diz
algo como “isso não é possível”, talvez. Não sei. Acho que estou
divagando.
Sinto meu corpo ser levantado e, antes que eu tente raciocinar
um pouco mais, estou sendo carregada não antes de ouvi-lo
dizer:
— Isso só pode ser um sonho…
Não sei você, “si”, mas eu com toda certeza estou sonhando. Sou
muito azarada; pois, em um sonho apareceria um cavaleiro de
armadura e cavalo branco, semelhante aos livros de romance que
leio, para me livrar de quebrar alguns ossos e ter fraturas
expostas.
Obrigada, “si”, aliás.
CAPÍTULO SETE
Você está aqui
“E então eu abro os olhos e vejo que quem está se apaixonando aqui sou eu.”
Dreams — The Cranberries
Acordar dói.
Sinto um na garganta e a boca seca. Meu corpo me castiga;
minha cabeça lateja, como se alguém tivesse desligado as luzes
rápido demais e esquecido de acendê-las direito quando voltei.
Tudo vem em pedaços. Ouço passos apressados no corredor,
pessoas conversando sobre algumas futilidades da vida adulta.
Escuto alguém falar algo como “o médico está atrasado”, “solicite
os exames agora” ou “a natação do meu filho é às 11, não posso me
atrasar”. Sei . Meu corpo está mole, como geleia, e sinto o cheiro
de hospital. Grogue. É como me sinto.
Como se tudo isso não fosse confuso, intrigante e
incrivelmente embaraçoso porque não me recordo do que
aconteceu ou de como vim parar nessa cama de hospital — você.
Você está aqui.
Esse nariz reto e arrebitado na pontinha, a pintinha no lado
direito do queixo que sempre me fez querer te olhar sem parar, os
olhos verdes intensos, o rosto perfeito. Isso seria um presente de
Natal? Muito bem-vindo. Obrigada, Papai Noel.
Você… é ainda mais bonito pela manhã… minha voz sai
baixa, lenta, como se tivesse que atravessar um caminho
comprido até chegar à boca. — Você é mesmo muito lindo.
Ah, Deus. Estou meio grogue, de fato. Minha língua se embola
na boca. A luz é clara demais. Vejo os raios do sol da manhã
reluzirem no seu cabelo preto, quase azul, de tão escuro. Fazia
muito tempo que eu não o via tão claramente.
Nos outros sonhos, sempre era escuro. Sempre. Eu nunca
conseguia ver direito o seu rosto. sentia a sua presença, tinha
um vislumbre muito deturpado do formato da sua face, do
sorriso. Só sentia. E acordava com muito medo. Medo de esquecer
a curvatura perfeita dos seus lábios rosados, as linhas do seu
rosto, o jeito exato dos seus olhos e como você sorria para mim.
Mas eu não esqueci.
A sua versão mais velha se parece muito com você… Eu tenho
uma imaginação muito fértil, porque consegui preservar com
exatidão todas as coisas que sempre gostei. E, mesmo que você
seja fruto da minha imaginação, ainda assim é perfeito demais
para o meu gosto.
Você está aqui.
Parado ao lado da cama, me olhando como se eu fosse algo
frágil demais para ser tocada. Os seus olhos… verdes. Intensos.
Profundos. Tenho certeza de que somente o mar Báltico
conseguiria captar o tom exato no auge do verão. São reais
demais para um sonho. Porque, obviamente, estou delirando.
Imaginando você pela milésima vez, após tantos anos. Mas até
sonhos sabem mentir bem.
Das outras vezes… continuo, porque parar de falar parece
um pecado, perigoso demais —, quando eu sonhava com você, era
sempre muito escuro. E… você nunca falava muito. Só ficava ali. A
sua voz… sorrio sozinha. A sua voz sempre me acalmou,
sabia?
Sabia? Meu Deus!? Estou falando com uma alucinação. Como
se fosse ele aqui mesmo. Como se tivesse aparecido. Uma mágica.
A verdade é que sinto saudades. Não sei de quando exatamente.
Não sei de onde. Só sei que sinto.
Esmay… diz ele, os lábios se movendo devagar, as mãos
suspensas no ar, quase que querendo me tocar. Tudo está em
câmera lenta agora.
Meu nome na sua boca soa certo e familiar. Eu sorrio mais, com
os olhos fechados agora, cansada demais para mantê-los abertos.
Mas já memorizei cada detalhe dele. Separei, numa caixinha, num
canto seguro do cérebro, o seu rosto, a sua voz.
Eu me remexo na cama, solto um grunhido. Minha garganta
continua seca.
Você se mexe. Sinto antes de ver. O colchão não se move, mas o
ar muda. Você vai embora e nos meus sonhos é sempre assim.
Você nunca fica.
Por favor… as palavras escorregam antes que eu pense.
Não vai embora, não.
Abro os olhos com dificuldade. Tudo está embaçado, e você está
de costas agora, indo em direção à porta. Ou talvez não. Talvez
seja só um jeito que minha cabeça inventou de me punir.
Nos meus outros sonhos você sempre vai embora digo,
quase num sussurro. — Sempre me deixa sozinha.
Minha garganta aperta.
Não quero ficar sozinha. Você devia ficar comigo. Por favor…
— soluço. — Só mais cinco minutos.
Meus olhos ardem e eu sei que meus lábios estão tremendo
copiosamente. Mas, não sinto vergonha… dele. Porque isso é
óbvio. Ele não está mesmo aqui. Não de verdade.
Hoje eu quero… respiro fundo, tentando eu preciso ficar
com você. Nem que seja só um pouco. Só na minha cabeça.
O cansaço pesa como se eu fosse mais velha do que realmente
sou.
hoje insisto, com os olhos apertados. As lágrimas
escorrem, molhando minhas bochechas. Lambo uma lágrima
solitária no lábio, e seus olhos verdes acompanham o movimento.
Eu sorrio por um breve instante e depois paro. Mais lágrimas.
Por favor.
Fico quietinha depois disso. O coração batendo alto demais.
Fico com medo de ter exigido demais dele. Mesmo que isso seja
um sonho. Uma fantasia semelhante a todas as outras que já tive.
Mas ele não vai embora. E, mesmo com os olhos bem fechados
agora, eu sei. Eu sinto.
Oscar continua aqui. Comigo.
CAPÍTULO OITO
Um devaneio
“Se tudo o mais acabasse e ele permanecesse, eu continuaria a existir; e, se tudo o mais
permanecesse e ele fosse aniquilado, eu não me sentiria mais parte do universo.”
— O morro dos ventos uivantes
Você vai me deixar sozinha mais uma vez? pergunto,
ansiosa, desesperada. Tentando chamar a sua atenção.
Oscar não responde. Não com palavras.
Ouço apenas o som da água sendo servida em algum lugar do
quarto. Depois, passos suaves. Ele não é apressado e não é
indeciso. Nunca foi, na verdade. Nunca fez o seu estilo.
O colchão cede levemente quando ele se aproxima de novo. A
cama reclama num rangido quase imperceptível. Alguém puxa
uma cadeira e se senta em algum lugar do quarto. Eu não ligo.
Toda a minha atenção se concentra em Oscar. Não desvio meus
olhos dos dele. São tão… dramaticamente verdes. Me deixam
inebriada.
Ele estende um copo de água para mim. Ainda não fala nada,
mas sua respiração é entrecortada, as sobrancelhas franzidas. Eu
o conheço bem o suficiente para deduzir que ele está preocupado.
Mas o que tem de tão alarmante acontecendo para fazer um Oscar
imaginário se preocupar? Ele é apenas um sonho. Um devaneio.
Uma fantasia minha, não é, minha mente fantástica?
Bebo a água que ele me ofereceu e deixo-a lubrificar os meus
lábios rachados, o céu da minha boca, a minha garganta. Sinto o
dorso da sua mão quente encostar na minha testa e tenho vontade
de morrer naquele toque. Oscar era sempre tão gentil. Eu lembro
desse traço marcante nele.
Fecho os olhos e suspiro devagar. Como uma menininha
apaixonada. Mesmo de olhos bem fechados, sei que ele está
olhando. O quarto continua claro. Branco e agora silencioso
demais. Quebro o silêncio vexatório entre mim e minha
personificação de um Oscar mais velho:
Se essa fantasia for resultado de alguma medicação que eu
tenha tomado… digo, meio sonolenta e preguiçosa, os olhos
quase se abrindo novamente. Quero ter a chance de tomá-la
mais vezes. Se isso me fizer ver você tão claramente como agora.
Sorrio, divertida.
Ele solta um grunhido.
Exatamente. Oscar solta um grunhido do fundo da garganta.
Ouço quando ele diz, com uma voz bem diferente da que eu me
lembro, mas ainda assim… conheço bem a voz. Meio confusa essa
situação:
— Mas que merda é essa? — diz ele, talvez rude demais.
Ou melhor, diz alguém. Porque os lábios de Oscar não se
moveram. estão meio entreabertos, entre a incredulidade e o
choque.
No entanto, a voz… não é de Oscar. Reconheceria esse timbre
entre um milhão de pessoas. Essa voz é de alguém que me
conhece e é muito próxima a mim. E, pelo tom e o agudo
abusado… estou certa de que a dona da voz está muito brava.
Agora, que droga é essa que está acontecendo? Porque, até onde
eu sei, estou alucinando. Sendo assim, não consigo entender por
que a voz da Milla aparece em um sonho que estou tendo com
Oscar.
Ouço um barulho irritante de uma cadeira riscando o chão,
rangendo de forma incômoda enquanto alguém se levanta
bruscamente. Oscar retira a mão da minha testa e eu gemo,
reclamando. Não quero que se afaste. Pela primeira vez em muito
tempo sonhando com ele, eu não tenho mais medo de esquecer.
Você poderia, por gentileza, nos dar um tempo a sós?
pergunta Oscar a alguém. — Ela está sob efeito de medicação, mas
já está recuperando a consciência. Se você não se importa…
Oscar estende a mão na direção da pessoa. E então eu olho.
Meus olhos se arregalam de verdade e agora posso ver mais
claramente o que está acontecendo à minha volta.
É mesmo Milla.
A pessoa que Oscar pediu tão educadamente para se retirar… é
ela.
Não vejo por que eu faria isso retruca, com uma rispidez
reservada àqueles em quem ela não confia. Ela está claramente
delirando e confundindo você com outra pessoa. É natural que eu
queira me certificar de que ela está plenamente consciente antes
de…
Milla? chamo por ela, que passa por Oscar. Sim, ela
contorna Oscar real e não imaginário e vem em minha direção.
Agarra minhas mãos, que estão frias, e o seu toque me aquece.
V-você — gaguejo, nervosa. — Está aqui? Quero dizer, você é real?
Ela franze as sobrancelhas, demonstrando uma confusão
genuína. Milla sempre foi muito transparente quanto às suas
emoções.
Sim, querida confirma, assentindo com a cabeça. Seus
cabelos formam um véu que esconde meu rosto do olhar intrigado
de Oscar. Eu recebi uma ligação do hospital. Estou na sua lista
de chamada de emergência. Lembra?
Faço que não com a cabeça.
Você não se lembra que me colocou na sua lista de
emergência? pergunta, incrédula, apertando meus ombros de
leve. Ela se senta na beirada da cama. — Elizabeth, você desmaiou
quando subia a escada da clínica. Foi isso que aconteceu, querida.
Não se lembra?
Faço que não com a cabeça mais uma vez.
Milla fala algo como “não sabia que estava com problemas de
memória”, mas não é isso. Porque eu me recordo. E se ela for real
e tudo o que disse for também —, isso significa uma única
coisa: Oscar é real, ouviu todas aquelas bizarrices que falei, Milla
presenciou a cena de horror e agora o maior vexame da minha
vida adulta foi assistido por duas pessoas próximas. Duas. Droga.
Eu me lembro, sim digo rapidamente, interrompendo algo
que ela iria dizer. É que… Milla. Acho que preciso falar a sós
com o Oscar.
Ela se afasta de olhos arregalados, com uma expressão que diz
algo como: que merda é essa que está acontecendo e quem é esse
cara?
Desvio o rosto do olhar inquisidor dela e me concentro nele.
Oscar está vestindo uma camisa de algodão preta e um jaleco
branco. Um jaleco. Branco. Com um crachá. Com o seu nome.
Ele usa um estetoscópio no pescoço e carrega um tablet em uma
das mãos. Ele o coloca na mesinha ao lado, mordendo as
bochechas por dentro, e depois o pega novamente, meio inquieto.
Seus olhos cor de esmeralda me estudam, captando sensações
que nem eu consigo entender. Quero me afundar nessa cama e
virar uma com ela. Apenas um objeto inanimado, sem
sentimentos.
Você vai me explicar o que aconteceu aqui depois?
pergunta Milla, me tirando de um transe guiado pelos olhos
verdes dele. — Elizabeth?
— Vou. Claro. Eu explico, sim.
Vai ser ótimo, Milla, explicar detalhe por detalhe de todo esse
constrangimento.
— Pode deixar.
Ela resmunga um “tudo bem” rápido, me um beijo na
bochecha e se afasta. Antes de sair porta afora, encara Oscar mais
uma vez. Milla tem 1,80 m de altura, mas não faço a menor ideia
de como consegue ficar pequena perto dele. Com certeza a teoria
da relatividade de Einstein explica isso.
A porta se fecha.
Fico a sós com ele.
Oscar.
— Você é real, não é? pergunto, com os olhos baixos. Observo
as suas mãos enormes se fecharem até os nós ficarem brancos. Ele
as abre e estica todos os dedos. Essa mania… ainda não perdeu.
Sou, sim, Esmay responde ele, com uma voz grave e firme.
Eu não disse nada porque ela estava aqui. Seria antiético da
minha parte responder às suas alucinações.
Eu finalmente o encaro. Seus olhos verdes me perfuram. Ele
dois passos em minha direção, cuidadoso. Eu me encolho e ele
recua: um passo para trás. Dois. Três. Ele está com os olhos
cautelosos. Sua voz é baixa e rouca quando diz:
— Esmay, eu…
— Como isso é possível?
— Não faço a menor ideia.
Oscar.
— Oi.
Engulo em seco.
— Você é mesmo real?
Antes que eu finalize, Oscar se aproxima com passos largos e
decididos. Ele olha de um lado para o outro, mas não tem
ninguém neste quarto de hospital limpo e branco demais.
Ele agarra minha mão direita com cuidado e delicadeza. Meus
pelos se arrepiam.
Com a outra mão livre, ele segura a aba do meu boné, na
intenção de tirá-lo.
Faço que não com a cabeça.
— Por favor…
Sua mão aperta a minha, como quem diz relaxa… você está
bem.
Shhh… murmura ele. Está tudo bem. Você ainda confia
em mim, não confia?
Penso por alguns segundos.
Então faço que sim com a cabeça, lentamente.
Certo diz, levantando a aba do meu boné um
pouquinho.
Eu suspiro, nervosa, irritada, medrosa.
Ele assente uma, duas vezes.
Abaixo o olhar, envergonhada.
Oscar retira o boné por completo e eu deixo,
inconscientemente, uma lágrima solitária escapar.
— Você é linda, Esmay. Sabia? Sempre foi.
Arregalo os olhos, surpresa.
— Eu não…
Você é garante ele. Isso não passa de uma fase do
tratamento. Eu consigo entender o quanto deve ser difícil para
você aceitar que os seus lindos cachos estão caindo. Você sempre
amou seu cabelo e… — Uma pausa. — Eu também.
Ele sorri. Sua covinha na bochecha esquerda fica mais evidente
que a da direita.
Oscar brinca com um cacho rebelde e ressecado do meu cabelo.
Vai passar afirma ele. Você vai enfrentar o tratamento
de cabeça erguida e não vai deixar esse câncer vencer. Como a
péssima perdedora que você é.
Solto uma risada fraca. Mais lágrimas caem. Oscar as limpa
com o polegar, sorrindo para mim.
Seu sorriso é mesmo lindo.
Disso eu me lembro.
Ele tem razão. Nunca gostei de perder mesmo. Sempre
arrumava confusão quando perdia dele no xadrez, por exemplo.
Oscar aprendeu xadrez comigo, mas acho que ele era talentoso
demais. Um gênio. Eu era muito habilidosa. Ele sempre vencia.
Eu nunca consegui vencê-lo. Isso me irritava às vezes. Meu
espírito esportivo é meio intenso. Sanguinário.
Você desapareceu da minha vida, Oscar choramingo.
Em um Natal você estava lá, sendo a pessoa que eu mais confiava
e queria por perto no mundo e…
As palavras se perdem.
Ele assente, as sobrancelhas erguidas, franzidas de um jeito
fofo. Os olhos bem abertos, profundos demais para eu conseguir
encará-lo por muito mais tempo.
Quando eu voltei para Tiradentes para visitar a vovó Mirtes e
também ver… você insisto. Ele não desvia os olhos dos meus.
Os lábios entreabertos. O rosto corado. Um semblante de tristeza
nubla sua face. Naquele Natal de 2013, você não estava mais lá.
Você tinha evaporado. Como se nunca tivesse existido.
Querida diz minha avó, com os olhos tristes. Eu sinto
muito. Não peguei endereço nem número para contato. Quando
fiquei sabendo… a tia tinha ido embora e levado o menino
junto. Pobrezinho. Os pais sequer…
A senhora sabe quando ele foi embora? pergunto,
acelerada. O coração batendo forte no peito. As mãos suando.
Ele… veio aqui alguma vez depois que voltei para Belo
Horizonte?
Veio, sim, querida. Eu… Vovó suspira por alguns
segundos. Então limpa as mãos no avental branco e corre até o
forno para retirar o bolo de milho que estava assando. Eu dei
comida pra ele. Fiz marmita de lasanha de frango, que eu sei que
ele adora, fiz bolo de milho, cesta de pão de queijo, suco de
morango, feijão-tropeiro… Fiz tudo para ajudar, Esmay. Porque
eu sei que ele é um bom menino.
E-eu… gaguejo. Agarro com força o tecido macio do
vestido. Meus lábios tremem, os olhos marejam, a respiração se
embaralha enquanto escuto minha avó dizer que Oscar meu
melhor amigo, minha pessoa favorita foi embora. E pior: não
sabemos para onde, nem com quem, nem se vai voltar. Não
consigo acreditar que Oscar se foi. E-ele… acho que ele precisa
de mim, vovó, né?
Ela abre um sorriso triste, repleto de compaixão.
— Merda! — praguejo.
Olha a boca, menina adverte minha avó, sem me olhar
feio.
— Desculpe… é só que… — respiro fundo. — Eu o amo, vovó.
As palavras saem feias e embargadas. Um se forma na
minha garganta, me sufocando. Eu disse em voz alta que o
amava. Minhas bochechas queimam de vergonha.
Mas confio em minha avó.
Oh, minha querida consola ela, afagando meu cabelo e
me puxando para mais perto. Apoio a cabeça em seu peito e
sinto o perfume doce e delicado, o aroma de bolo de milho no
avental. A chuva cai fora, molhando o jardim de rosas, assim
como as lágrimas grossas e salgadas molham meu rosto. Você
tem treze anos… Vai saber o que é amar alguém de verdade
quando estiver mais velha. Agora… pode chorar.
E foi isso que fiz. Chorei por mim, por Oscar, por termos nos
afastado tão bruscamente. Chorei porque o Natal de 2013, que eu
achava que seria maravilhoso, se transformou em um pesadelo.
Passei dias chorando. A saudade me sufocava. O medo dele estar
com fome, sem ninguém para ajudá-lo. Naquele Natal, torci para
que Oscar conseguisse vencer na vida. Sair daquele limbo de
pobreza e necessidade.
Depois de Oscar… nunca mais amei alguém.
Aquilo, sim, era amor.
Esmay… diz ele, com o rosto repleto de dor. Seu polegar
passeia pela minha bochecha, devagar. Eu procurei por você.
Depois. Quando já tinha condições de me virar sozinho.
Você procurou por mim? pergunto, com as sobrancelhas
franzidas. — Onde?
Não voltei para Tiradentes depois que fiquei sabendo da
morte da sua avó. Sinto muito. Ela era…
Ele engole em seco. Respira fundo. Seus dedos tremem ainda
acariciando minha pele.
— Ela era muito boa para mim.
— Por que não voltou?
Eu sabia que a única coisa que te prendia àquela cidade era
sua avó — responde, com a voz baixa. Quase uma confidência.
— E você… — sussurro.
— O quê?
As únicas pessoas que me prendiam a Tiradentes eram a
minha avó e… você, Oscar.
Ele abre a boca, fecha, abre de novo. Então pergunta:
— Você voltou lá depois da morte da sua avó?
Assinto. O queixo dele cai. Os olhos verdes bálticos se
arregalam. Você ainda não percebeu, Oscar? Não entende o
quanto eu…
— Quando?
— Todos os anos. Em todos os Natais, Oscar.
— Merda…
É. Merda mesmo. De 2013 até este ano, passei todos os
Natais em Tiradentes. Esperando você. Ele reprime um
xingamento. — Mas você nunca apareceu.
— Eu não imaginava que…
Que eu fosse tão apegada àquela cidade? Ele arregala os
olhos. — Ou… a você?
Não é isso retruca, passando as mãos pelos cabelos
escuros. Ele coça os olhos e logo em seguida passa as mãos
grandes pelo rosto. Parece… exausto. Vejo as olheiras azuladas
abaixo dos olhos, a boca franzida e apertada. Ainda assim, segue
sendo o homem mais bonito com quem já interagi na vida.
Eu não imaginava que você ainda pensasse em mim, Esmay
diz, passando as mãos agora pelos meus cachinhos rebeldes.
Achava que era só eu que…
— O quê, Oscar?
Que não conseguia te tirar da cabeça revela, apertando a
ponta do nariz e sorrindo fraco.
Oscar é lindo. Tão lindo de morrer que decido que é hora de
colocar o boné de volta.
— … e olha que tentei, Esmay. Muito.
Prendo a respiração.
— Você não faz ideia — conclui ele.
Minha expressão muda. Algo muito próximo de ciúmes. Um
sentimento feio. Não posso permitir sentir ciúmes de um homem
de 27 anos, solteiro, sem compromisso algum comigo.
— Eu tenho sim. Deve ter saído com muitas mulheres.
Ah, com toda certeza ele saiu, sim. Não faz sentido que alguém
como ele não tenha um exército de mulheres ao estilo Victoria’s
Secret com o detalhe cruel de serem também inteligentes,
provavelmente cientistas como ele. Gênias. Como ele. Que chance
eu tenho?
O quê?! exclama Oscar, arregalando os olhos. Isso…
não. — Seus olhos se arregalam. — Não mesmo, Esmay.
O que você fez para tentar faço aspas com os dedos me
tirar da cabeça?
Ele morde a parte interna da bochecha. Eu mordo os lábios,
tentando segurá-los firmes.
Saiu fazendo trabalho comunitário, leu cem livros por ano,
aprendeu novas receitas, resgatou gatinhos de árvores, plantou
um limoeiro? — indago. — Me diz, Oscar.
Ele fica sério. Não é raiva. É consigo mesmo.
Eu estudei, Esmay. Não é isso que pobre tem que fazer neste
país de merda?
— Perdão?
Quando eu tentava te tirar da cabeça repete, com a
respiração pesada eu estudava. Estudei e trabalhei como um
desgraçado. Mas, entre fórmulas de matemática e mesas que eu
tinha que servir, você sempre aparecia.
Parecia coisa da minha cabeça. Mas eu gostava de lembrar de
você. Do seu rosto, da sua risada. Isso me mantinha focado. Eu
sabia que, se quisesse ter alguma chance de te reencontrar,
precisava resolver a minha vida ferrada. Então trabalhei, estudei
para o Enem e passei, com dezoito anos, na PUC. Fiquei em
primeiro lugar. Foi difícil. Toda a transição, quero dizer.
Faço que sim com a cabeça.
Quero poder abraçá-lo. Quero muito. Quero poder dizer que
estou feliz que ele tenha conseguido. Que durante todo esse tempo
guardei na memória as lembranças da minha relação com ele. Da
nossa amizade profunda. De tudo em Tiradentes. Ah, Oscar. Se
você soubesse.
Oscar respira fundo e balança a cabeça. Os seus olhos me
capturam.
Não consigo parar de encará-lo. Estou… estarrecida. É isso.
Mas, eu nunca pensei em desistir admite. Eu sofri
muito. Pra caramba! Olha… foi bem problemático todas as coisas
que passei. Porém, eu acho que sou um pouco teimoso.
Imperturbável, talvez?
Talvez? retruco balançando a cabeça e sorrindo. Oscar,
você é a pessoa mais autocentrada que conheci em toda a
minha vida.
Quê?! exclama ele. me chamando de egocêntrico,
Esmay? Ou pior… Não! Tá me chamando de narcisista?
Arregalo os olhos. Não! Não.
Peraí. de sacanagem? Oscar está brincando comigo. Ele
entendeu o que eu quis dizer. está tirando sarro das minhas
escolhas de palavras, como quando éramos adolescentes.
Você e suas palavras difíceis. Eu sei, Esmay. Ele diz. Suas
mãos voltam a acariciar minha bochecha sardenta. Eu não
reclamo. Concordo. Eu sou meu próprio eixo. Não costumo me
anular para caber em relações. Consigo me colocar em primeiro
lugar sem me sentir mal com isso. Mas, não sou egoísta. Nunca.
— Não é, não. Você é…
Engulo em seco.
— … um gênio.
Não era isso que eu ia dizer. Ele sabe que não. Porque me olha
de um jeito intenso demais.
— Não sou, não. Sou esforçado. Razoável.
Ele dá de ombros.
— É diferente.
Arregalo os olhos. Oscar sempre foi um gênio. Quando me
ensinava matemática, explicava melhor do que qualquer
professor. Tirava minhas dúvidas com paciência, como se tudo
fosse simples. Sempre dizia que era porque era dois anos mais
velho.
Razoável?
Nem ele acredita nisso.
Ele tem ciência de que é brilhante.
Você é mesmo um gênio, sim! Parabéns, Oscar! digo,
sorrindo. — Você cursou medicina na PUC?
Ele aquiesce com a cabeça.
— Você…
Ele me encara, ansioso. Nervoso. O rosto corado, os lábios
apertados, como se estivesse com medo do que eu fosse dizer.
— Oscar, você trabalha aqui?
Ele morde o lábio inferior e passa os dedos longos pelos cabelos
escuros. A luz do sol da manhã, que entra pelas janelas do quarto,
faz Oscar ficar ainda mais lindo. Se é que isso é possível.
— É complicado — responde, balançando a cabeça.
Não sou um gênio como você, mas acho que posso entender
— digo, inclinando a cabeça.
Uma mecha do seu cabelo liso escorrega para os olhos e, com
um instinto que nem eu mesma sabia que nutria em relação a ele,
corro para afastá-la. Ele faz o mesmo. Nossos dedos se tocam.
Uma descarga elétrica sem precedentes, como dois fios
desencapados. Antes que eu recolha a mão, ele segura meus dedos
e os mantém ali, colados à sua bochecha.
Eu sou residente R1 de Oncologia em um hospital público
explica. O doutor Zhang é meu preceptor. Foi ele quem me
orientou desde a faculdade… acabamos ficando muito próximos.
Ergo uma sobrancelha, e ele continua. Os nós dos dedos
acariciam o meu maxilar.
A clínica é conveniada com o hospital da residência. Faço
alguns plantões aqui também. Sempre com supervisão dele, claro.
Tudo muito bem controlado.
Ah, Deus. Oscar… você conseguiu se tornar médico?
Uau… sorrio, e ele sorri também. Ficamos nos encarando,
intensamente. Meu Deus! Parabéns, Oscar. Eu nem sei se
consigo mensurar o quanto estou feliz por você.
Ele continua segurando minha mão colada a sua bochecha. Os
olhos verdes brilhando.
Antes que eu perceba, estou o abraçando. Agarrada ao seu
pescoço. Meu queixo apoiado nos ombros largos. Oscar não hesita
e passa os braços pela minha cintura, me puxando para mais
perto. Não quero sair desse abraço nunca mais. Senti tanta
saudade.
O cheiro dele é muito bom. Aliás, eu me lembro desse cheiro… é
tão gostoso. Tão familiar. Era ele.
— Você é o “si”, Oscar…
— O quê, querida? — murmura. — Repete. Eu não entendi.
Você é o “si” repito. Era você na escada, não era? Você
me salvou.
Ele não responde. Mas aperta minha cintura com mais força.
Assente com a cabeça. Afaga minhas costas. Cheira meu cabelo.
Era ele, sim.
Oscar… meu cavaleiro de armadura e cavalo branco.
Quem diria, não é?
Isso, sim, é um presente de Natal de verdade.
CAPÍTULO NOVE
Parece até mentira
“Eu sei que algum dia você terá uma bela vida. Eu sei que você será uma estrela no céu
de outro alguém, mas porque não pode ser no meu?”
Blach — Pearl Jam
Oscar
Continuo sem acreditar que é ela. Esmay.
Eu a procurei por tanto tempo. Achava que nunca conseguiria
vê-la novamente. Eu me considerava um cara extremamente
azarado. Mas parece que nem tanto agora, porque a sorte resolveu
sorrir para mim. Já não era sem tempo.
De todas as clínicas de Belo Horizonte em que ela poderia se
tratar, escolheu justo essa. É nítido que isso se deve à
competência do doutor Zhang e ao fato de ele ser uma referência
na oncologia. Mas, ainda assim, é quase um sonho. me
belisquei inúmeras vezes desde que a trouxe para cá.
Esmay Elizabeth. Seu nome. Era tudo o que eu tinha para
tentar encontrar você. Nada mais, além disso. E, olhando para o
passado agora, consigo pensar que toda a espera valeu a pena.
Todo o tempo que desejei passar com você ou ver o seu sorriso de
novo. As noites em claro entre uma prova e outra da faculdade, as
horas de trabalho incansáveis. Tudo valeu a pena. Todo esforço e
dedicação me trouxeram exatamente para este momento da
minha vida. O momento em que reencontrei você.
E parece que nada mudou. Pelo menos não para mim. Olhando
para você agora, percebo que o seu sorriso continua o mesmo de
antes. Encantador.
O perfume dela é embriagante.
Tem algo de magnético nessa mulher. Impossível de ignorar.
Isso vai acabar me deixando louco.
Você estava tão próxima. Perto demais. Parece até mentira.
Quando vi aquela garota escorregar e quase cair da escada, agi
por reflexo e impedi o pior. Fiquei orgulhoso de mim mesmo.
Mas, quando finalmente prestei atenção… as sardas nas
bochechas, os olhos castanhos expressivos e alegres, que eu
conhecia bem, os cabelos cacheados, os lábios bem desenhados e
assimétricos...
Quando olhei para o rosto daquela garota, que agarrava a barra
da minha camisa com tanta força. Quando me dei conta de que
quem estava nos meus braços era você… meu mundo ganhou cor
novamente. Forma.
Foi um choque quando descobri o motivo que te trouxe até
aqui. Olhei todo o seu prontuário e o seu histórico médico de cima
a baixo. Analisei todos os exames feitos até agora, as infusões,
quantos ciclos de quimioterapia você fez. As intercorrências.
Não quero deixar passar nada. Quero cuidar de você.
É exatamente por isso que talvez eu esteja prestes a fazer uma
coisa antiética e extremamente displicente da minha parte. Estou
um pouco nervoso. Ah, cacete! muito nervoso. Mas eu consigo
fingir bem.
É um problema quando penso no fato de que ele me conhece
muito bem. Entretanto, tenho em mente que sou excepcional
quando o assunto é performar. Fiz isso a minha vida inteira.
Duas batidas na porta.
Nessa porta perturbadoramente branca. Ele sabe que sou eu.
Mas nunca me pede para entrar. Gosta de agir como se não me
suportasse. Velho rabugento! Eu sei que você me adora.
Eu sempre entro.
Porque, se eu não entrar… olha, sinceramente, ele não se
importaria em me ver petrificado, semelhante às estátuas das
pessoas daquela cidade romana chamada Pompeia, que foi
destruída e soterrada pela erupção daquele monte… qual era
mesmo o nome? Ah! Vesúvio. De fato, Zhang não se importaria.
Ou, ao menos, quer que eu acredite nisso.
Estou ocupado agora, Oscar resmunga ele, carrancudo e
irritado.
Os olhos de águia se concentram na tela do seu computador de
última geração, que para ele faz pouca diferença que Zhang
mal consegue acessar o Google sem precisar de ajuda.
— Tô vendo.
Pilhas de exames e papéis estão espalhadas pela sua mesa
ampla, que agora parece pequena demais. Espera. O quê é aquilo
ali? São desenhos de… crianças?
Naquele desenho perto do braço dele tem mesmo um Zhang de
braços cruzados e óculos praticamente maiores que o próprio
rosto, com cabelo Black Power, vestido de… Super Choque?
Ah… são cartinhas.
Cartinhas de Natal. Tem um mini texto escrito com letrinhas
meio disformes, mas incrivelmente fofas. Os “os” e os “as” saíram
desengonçados. Mas está perfeita. Na carta, diz:
Amo você, doutor Z. A mamãe disse que eu tenho que chamar de
senhor, mas você disse que não liga. Sabia que eu gosto de
como você trata a gente? As outras pessoas sempre me olham
feio, como se eu fosse um monstro. Mas você não.
que você me falou aquele dia que é mesmo o Papai Noel, eu
queria pedir um presente. Se não puder me dar esse ano porque
não fui bonzinho e aprontei algumas coisas como aquela vez
que coloquei meleca no casaco do Arthur ou aquela outra em que
chamei a Alice de feia, quando ela pegou a minha caixa de
colorir e não queria devolver não tem problema. Deixa pro
ano que vem.
A titia Mara disse que eu tinha que me desculpar com meus
amigos e pedir perdão pro Papai do Céu também. Fiz as duas
coisas. Ela disse que o Papai Noel ia ficar sabendo do meu auto
de himildade. Acho que foi isso que ela disse. Mas eu queria pedir
o meu presente. Faz tanto tempo que ansioso. Espero que você
traga o que pedi.
No dia que a titia Mara veio aplicar aquele soro que demora, eu
perguntei se poderia ir à praia. Ela disse que ainda não. É que eu
muito dodói, né? Mas eu quero ir com a mamãe, o papai, a
Mirna e o meu cachorro caramelo. Sabia que o nome dele é
Virgil Hawkins? Igual o desenho do Super Choque. Eu adoro esse
desenho.
Então, quando eu andava com ele na rua, gritava: VIRGIL
HAWKINS, quando ele corria atrás de outro cão e todo mundo
ficava olhando. Ele vinha, claro. Balançando o rabinho. Amo ele
também e sinto saudades.
Quando eu for à praia, eu quero levar o presente que vou pedir
agora. Quero uma boia verde com aquele peixe lindão azul do
desenho que assisti ontem. Ele é azul, grandão, doutor Z, e
parece um tapete. Leva todos os peixinhos para a escola. É do
desenho Procurando Nemo. Eu não sei o nome daquele peixe
gigante… mas ele tem um rabo fino e pontudo. É bonito. Será
que vou ter a chance de ver um daqueles de verdade? Eu queria.
Queria mesmo.
Minha mãe dormiu na hora que ele apareceu, então ela não sabe
como chama aquele peixe. Mas você é o Papai Noel. Tem poderes
mágicos, não é? Vai descobrir. Eu quero essa boia. Verde, com
esse peixe bonito azul cheio de bolinhas.
Eu quero pegar sol na pele. Tomar banho naquela água salgada.
A mamãe disse que não pode beber porque faz mal e tem gosto
ruim. Eu não bebo. Nem o Virgil Hawkins.
Então, se você tiver tempo e quiser mesmo me dar esse presente,
não esquece de deixar aqui no meu quarto, tá? Vou ficar
esperando. Tá vendo? Sou um menino bonzinho.
De seu amigo mais engraçado,
Dante.
— Quantos anos ele tem?
Zhang ainda não está olhando para mim. Como eu disse: gosta
de fingir que me odeia.
— Quem? — pergunta, ainda digitando.
O dono do Virgil Hawkins insisto. Ele finalmente me
encara com a sua pose mais rabugenta. — Quantos anos ele tem?
— Dante tem oito anos e é uma criança excepcional.
— Concordo.
— Hmm.
— A propósito, o nome é Sr. Raia, doutor Zhang.
Perdão? Ele ajeita os óculos fundo de garrafa enquanto me
encara, franzindo as sobrancelhas. — Do que está falando, Oscar?
Você vai ter que adaptar o presente, porque ele foi muito
específico.
Zhang solta uma risada e se reclina na cadeira, fazendo-a ranger
baixinho.
Quer dizer… uma boia verde com o desenho do Sr. Raia? Não
vai achar isso em lugar algum. Vai ter que adaptar.
Obrigada pela dica, Oscar. Mas eu tenho os meus próprios
artifícios.
— Que seriam…?
Zhang ergue uma sobrancelha, e um sorriso de lado ornamenta
seus lábios. Ah, claro. Como não pensei nisso antes?
— Vai mandar fazer? — indago.
Ele sorri. Um sorriso debochado. Zhang parece até mais jovem
sorrindo assim. O cabelo grisalho não faria muita diferença se ele
sorrisse assim mais vezes.
Não faço a menor ideia de onde vai conseguir fazer isso, mas
em frente. Dante precisa mesmo ganhar essa boia verde de
presente… Papai Noel.
— Sim.
Ele sorri mais ainda. Mas logo em seguida volta o olhar para a
tela do computador, me ignorando. Ótimo.
Pigarreio. Ele não olha de volta.
Beleza. Acho que vou ter que improvisar e odeio o que isso
pode se tornar caso eu fale alguma besteira. Mas tenho que
arriscar.
— Doutor Zhang, eu vim perguntar se…
— Se for reclamação sobre atraso de infusão — interrompe — ou
algo do tipo, fale com a enfermagem.
Não é nada disso.
Droga! Vou tentar ser o mais indiferente possível.
— Quero acompanhar a paciente Esmay — digo.
Fantástico, Oscar. Mais direto, impossível. Sinto meu coração
ribombar ferozmente. Ignoro isso.
Ele não levanta os olhos do teclado do computador. Digita
usando apenas os dois dedos indicadores, como pinças. Faz isso
como uma tartaruga.
Sugira, não afirme. Fale nas entrelinhas e seja o mais distante
que conseguir. Quem sabe assim ele não perceba o quanto você
quer isso.
Acredito que possa ser de grande valia para a minha
formação.
Você não anda tendo trabalho demais? questiona, ainda
sem me encarar. Os dedos seguem lentos no teclado, como uma
tartaruga centenária.
— E desde quando o senhor se preocupa com isso?
Bingo!
Ele levanta a cabeça e para de apertar as teclas do computador
como se estivesse matando bichinhos com a ponta dos dedos. É
uma cena digna de comédia pastelão do mais alto nível.
— Eu gostava mais de quando você tinha a língua presa, garoto.
E eu gostava mais de quando o senhor era menos enxerido.
Reprimo um revirar de olhos, porque sei melhor do que
ninguém que Zhang espera exatamente isso. Comportamento
infantil. Só que isso não é do meu feitio — e ele sabe.
Linfomas são a base da minha pesquisa científica, e a
paciente Esmay tem linfoma de Hodgkin clássico, com um
subtipo que muito me interessaria aprofundar. Quero abordá-lo
na minha pesquisa. Seria interessante fazer um estudo de caso.
estou considerando as opções, senhor.
Indiferente, indiferente, indiferente.
Ele desgruda os olhos dos meus e volta a digitar. Se percebeu
que estou mentindo… não quis que eu notasse.
Ele segue digitando, uma tecla após a outra. Jesus Cristo!
está na hora de ele aprender a usar o microfone do
computador para transcrever textos. Uma mensagem de e-mail
com mais de cinco linhas se transforma em um grande evento
literário que leva mais de meia hora.
Ele é como um homem das cavernas com um QI acima de 130.
Um enorme paradoxo.
Doutor Zhang… o senhor é um cientista brilhante. Mas quando
o assunto é tecnologia, uma criança de dez anos consegue se sair
melhor.
Aposto que Dante consegue se sair melhor do que o senhor.
— Você não pode me dar cinco minutos da sua atenção, senhor?
— pergunto. Não tão indiferente quanto gostaria desta vez. — Só…
cinco minutos.
Ele ergue uma sobrancelha. Sua pose de velho rabugento
retorna. Braços cruzados sob o peitoral e olhos semicerrados. A
própria imagem do mal.
O que você andou aprontando no seu tempo livre, Oscar?
pergunta, curioso.
Os olhos escuros, agora atentos, me encaram. Isso me faz
lembrar da época da faculdade, quando apresentei meu projeto de
pesquisa sobre linfomas o que fez com que boa parte dos meus
colegas se esforçasse um pouco mais para conseguir uma vaga
como orientandos do doutor Zhang. Ele escolhia os melhores.
Palavras dele, não minhas.
Quando finalmente decidiu que apenas eu seria orientado por
ele naquele ano, percebi que talvez eu pudesse mesmo me tornar
um médico excepcional. Grande parte do profissional que sou
hoje devo a ele.
A paciente Esmay desmaiou subindo as escadas da clínica
outro dia declaro. Ele me observa atentamente agora, com a
postura completamente aberta. Isso me deixou incomodado.
Decidi voltar ao ponto de partida. Reli a biópsia original, olhei as
imagens do PET com calma, conferi também as datas, as doses e
os exames que ela fez.
Conversou com a paciente? indaga ele, coçando o queixo.
— Isso é essencial.
— Sim, senhor. Fiz uma segunda leitura crítica do caso.
— E?
Suspeito que tenha havido uma reação pulmonar inicial à
bleomicina. A inflamação que vimos no PET intermediário, na
verdade, é um…
Falso positivo interrompe ele, intrigado. Um sulco se
forma entre as sobrancelhas grisalhas. Ele se remexe na cadeira,
impaciente, ansioso. Gosta de me ver divagar, ao que parece.
Isso. O PET intermediário costuma confundir inflamação
com doença ativa, especialmente com bleomicina. Não seria o
câncer progredindo…
— Certo. E o que mais?
Afasto-me um pouco da porta, aproximando-me da mesa, com
as mãos enfiadas nos bolsos do jaleco.
Não seria o câncer progredindo, obviamente. Talvez o exame
não esteja pior. o corpo dela que agora está respondendo de
um jeito diferente.
O exame dizia que o câncer tinha recuado, mas não o quanto
deveria. O PET feito no meio do tratamento mostrava resposta,
mas abaixo do esperado. Tudo bem. Não é um fracasso, afinal.
Apenas um alerta.
O câncer não está se espalhando pelo pulmão. É apenas uma
inflamação causada pelo tratamento.
— Tudo bem. Pode ficar de olho nela, por ora…
Ele volta a digitar com certa dificuldade. Depois para e continua
a me orientar, porque digitar e conversar são como óleo e água
para ele. Zhang não consegue misturar as duas coisas.
Hesito por um segundo antes de falar:
O senhor acha que… penso um pouco mais antes de
continuar que seria prudente eu acompanhar o caso mais de
perto?
Não sei por que fiz essa pergunta idiota. É o que eu quero, não
é? E, mesmo que seja antiético, não tem como Zhang saber.
Ele me encara.
Acompanhar, sim. Decidir, não. A pausa é breve, mas
firme. — Isso ainda é minha responsabilidade.
Assinto com um aceno.
— Claro.
Vou discutir isso com a pneumologia e rever as imagens com
a radiologia antes do próximo ciclo continua Zhang. Se
houver qualquer sinal de toxicidade pulmonar evolutiva, a
bleomicina sai do protocolo.
Ele fecha os olhos e passa as mãos pelos cabelos grisalhos. Um
sinal da sua irritação corriqueira.
— Até lá, seguimos atentos. Tudo muito bem documentado.
Solto o ar devagar e assinto mais uma vez. Ele me dispensa com
um aceno de mão e volta a digitar. Caramba… não dá.
Está digitando um livro? pergunto antes de sair. Ele me
lança um olhar feio.
É um e-mail em resposta a uma aluna da residência que está
com dificuldades. Anotei no papel rapidinho… mas sabe como é…
não sou o bonzão da tecnologia. Não sei como os jovens de hoje
conseguem usar com tanta facilidade essa… coisa.
— Tudo bem. Chega pra lá! — peço, empurrando sua cadeira um
pouco para o lado. — Deixa que eu faço isso.
— É muita gentileza, Oscar. Mas não precisa.
Claro que precisa retruco, sorrindo de lado. Olha o
tamanho desse texto! Não ia conseguir digitar tudo isso nunca.
Ficaria escrevendo aqui até o Natal. Ou talvez até o Ano-Novo.
Ele me empurra com o ombro.
— Não conta isso pra ninguém, garoto.
Nunca perdeu essa mania, não é? De me chamar de garoto.
Beleza. Já estou acostumado.
— Não conto, não. Pode deixar.
Em menos de cinco minutos, o garoto aqui escreveu o e-mail e
enviou. Sem maiores problemas.
Ah, Zhang… aprenda a agradecer da próxima vez.
CAPÍTULO DEZ
Implicações
“O meu amor e os meus desejos permanecem inalterados.
Mas basta uma única palavra sua para que nunca mais lhe fale no assunto.”
— Orgulho e Preconceito
Ele me deu o número dele.
Por livre e espontânea vontade. E, mesmo que não tivesse me
dado, eu teria pedido. Com Oscar eu não consigo ter vergonha.
Ele me deixa confortável. Me sinto segura.
Depois do desastre que foi aquele dia e do quanto fiquei mal
antes e depois da infusão, continuei cogitando ligar ou não para
ele. Ontem passei o dia inteiro com o celular na mão. Tomando
coragem. Por quê? Porque sou uma idiota. Covarde.
Sthela insistiu, afirmando que eu teria que ligar. Mas Milla…
Ela é a maior defensora do Oscar agora. Não sei o que deu nela.
Quero ligar, sim. Mas não quero ser um incômodo e,
definitivamente, não quero prejudicá-lo no trabalho. Oscar está
me acompanhando de perto, mas o doutor Zhang… Bom, ele não
sabe da nossa relação. Ou, ao menos, da nossa antiga relação.
Eu sei que era coisa de criança. Mas foi especial. Pelo menos
para mim e, meu Deus, acho que estou apaixonada por esse
homem. Esse gênio de um metro e noventa de altura.
Você não vai esperar mais, né? diz Sthela, alisando o lenço
rosa-claro na cabeça. — Ou será que vai?
Solto um gemido e me jogo de costas na cama. Droga! Droga!
Por que Deus tinha que ter me feito tão tímida?
Ela vai, sim concorda Milla, e eu me remexo nos lençóis
brancos da cama.
— Meninas, eu não quero parecer invasiva — digo.
Invasiva? exclama Milla. Meu Deus, Esmay! O cara te
deu o número dele, porque ele não queria ser invasivo. Queria te
dar o espaço que você precisa.
— É — diz Sthela.
Eu sei. Ele é tão perfeito. Eu nem sei como isso é possível. A
gente se encontrar assim… Parece até que…
É um presente de Natal, Esmay! fala Sthela, sorrindo. Cato
sobe em sua perna, miando, e ela o faz aparecer na câmera. — Não
é, Cato? Fala pra titia May que ela precisa agarrar esse gatão.
— Meu Deus, Sthela… Você é tão direta.
— E eu não me envergonho disso — diz, orgulhosa.
Ok. Da próxima vez, vou pensar duas vezes antes de ligar para
essas duas na intenção de falar da minha vida amorosa. Quer
dizer… que vida amorosa? Eu sequer tenho uma.
— Então… — engulo em seco. — Acham que eu deveria ligar?
A ligação de Milla está péssima agora. Ela deve estar enfiada em
alguma trilha maluca, que a chamada do Zoom vive caindo. O
áudio travando. Não é natural que você esteja às quatro da tarde
com uma roupa de treino no meio do mato.
— Sim — responde Sthela.
— Será que ele pode atender agora?
— Você pode tentar.
— Não quero atrapalhar nada importante.
— Não vai.
— Será?
— Só vai saber se tentar.
— Tá.
Tá.
A imagem de Milla aparece na tela, agora menos embaçada.
— Meu Deus! Porcaria de internet! Oi, gente. O que eu perdi?
— Só a Esmay em uma jornada infinita de autodepreciação.
— Não estou me autodepreciando.
As duas fazem uma careta. Se Milla e Sthela estivessem lado a
lado, teriam se olhado como cúmplices e formado um complô
contra mim. Traidoras.
— Só estou pensando nas implicações disso.
Implicações? questiona Milla. Cacete, Esmay! Você é
muito certinha. É uma ligação. Não tem como o doutor Zhang
saber disso. Não tem como ninguém naquela porcaria de clínica
saber, na verdade. Relaxa. Não é como se vocês fossem a Angelina
Jolie e o Brad Pitt quando eram casados.
— Meu Deus! Que comparação de merda! — grunhe Sthela.
— É. Concordo.
Concordo também diz Milla. É uma comparação de
merda! O que eu quero dizer é que vocês não são famosos. Não é
como se fosse haver um paparazzi em cada lugar que ele queira te
levar.
Milla realmente está em uma trilha. Ela vira a câmera para que
a gente possa ver a cachoeira desaguando ao fundo.
Lindo, não é? pergunta ela, e nós concordamos. É mesmo
lindo.
Então eu ligo? questiono, mordendo as cutículas do meu
polegar.
Liga! as duas falam ao mesmo tempo. Um coro em tom de
bronca.
Durante o dia, continuo sem coragem.
No entanto, naquela mesma noite, quando giro de um lado para
o outro na cama e não consigo dormir… quando sinto meu
estômago afundar e uma ansiedade tomar conta da minha mente
e do meu coração… quando sinto… saudades de ouvir a sua voz,
brinco com a ideia de ligar para Oscar.
A hora que for, foi o que ele disse quando me deu seu número.
São duas da manhã, e talvez eu tenha tomado coragem de ligar
agora porque, definitivamente, ninguém atenderia uma
chamada a esse horário. A menos que Oscar esteja de plantão.
E merda! Eu faço uma bobagem estratosférica porque… eu ligo.
E fico estupefata quando… bem, quando Oscar atende no
primeiro toque:
— Está tudo bem?
Oscar, me desculpa o horário. Droga! O que eu falo?
Eu… onde você está?
— Em casa — responde, com uma voz rouca.
Ouço o que parece ser o barulho de lençóis, talvez.
— Eu te acordei?
Merda! Acordei. Ele está com voz de sono. Meio grogue. A
resposta é sim, Esmay!
— Sim. Está tudo bem? — repete a pergunta.
Ah, sim. Eu achava que você estaria de plantão. Me desculpa
por ter te acordado. Pode voltar a dormir.
Pode voltar a dormir? Mas o que diabos estou fazendo? Oscar
deve estar me xingando em três idiomas diferentes agora.
Felizmente, isso não tem mais volta. Esmay, por que você
ligou tão tarde? Você está passando mal? Precisa de alguma
coisa?
Ouço um tom de urgência no modo como fala. Como se Oscar
estivesse disposto a pegar a chave do carro naquele mesmo
instante para vir me salvar. De novo.
É que… eu queria conversar com você. Mas acho que
escolhi um péssimo horário.
Uma pausa. Assustadoramente longa.
— Tudo bem.
Quase consigo visualizá-lo passando as mãos pelos cabelos
escuros e lisos. Acho que decorei algumas de suas manias. Essa
é uma delas.
Tudo bem tipo vai voltar a dormir ou tudo bem tipo a gente
pode conversar?
Eu me acomodo na cama, apoiando as costas na cabeceira e
abraçando as pernas.
Acho que a segunda opção é a melhor escolha diz, agora
um pouco mais em alerta. A voz mais firme. Não consegue
dormir por quê? Está sentindo dor, enjoo? Me diz, Esmay.
Oscar adora falar meu nome. E eu gosto de como meu nome soa
na voz dele.
Humm… no momento, estou sem sono mesmo. Tentei
ouvir música e ler, mas parece que nem isso consegue mais me
distrair.
Ouço um barulho do outro lado da linha. Ele está rindo? Do
quê?
— O quê? — pergunto, confusa.
Me ligou às duas da manhã porque sou a melhor distração à
sua disposição?
Ele continua rindo. Uma risada gostosa, que envia arrepios por
todo o meu corpo. Meu coração pega fogo.
— O quê?! Não foi isso que eu… não era isso que eu…
— Eu te distraio?
— Não! Não, Oscar.
— Não?
Acho que ele está adorando isso. Porque continua rindo baixo
enquanto brinca com a integridade da saúde do meu coração.
Órgão traidor e fraco.
— Não.
Tudo bem. Ele para de rir. Então você me ligou às duas
da manhã porque me acha um no saco e pensou que, se
conversasse comigo, ficaria tão entediada que isso faria você
dormir rapidinho?
— Não também, Oscar.
— Tudo bem. Eu não ligo. Graças a Deus que você ligou, Esmay.
Olha, eu cheguei a me arrepender de não ter anotado o seu
número naquele dia. Eu não queria ser invasivo. Me achei burro
pra cacete.
Ah...
— Estou feliz que tenha ligado.
— Mesmo às duas da manhã?
Especialmente às duas da manhã.
Abro um sorriso. Ele continua:
Nunca falaram para você que alguns homens gostam de
acordar às duas da manhã para conversar com mulheres bonitas e
inteligentes por ligação?
Solto uma risada frouxa.
— Não sabia, não é? — pergunta ele, com uma voz rouca e sexy.
Faço que não com a cabeça, mesmo que ele não esteja vendo.
— Mulheres… — resmunga.
Oscar suspira. Sinto a lufada de ar mesmo do outro lado da
linha. Ele está caçoando de mim.
Acho graça disso. Quando éramos adolescentes, Oscar era
engraçado. Mas ainda assim, um pouco travado. Acho que eram
as circunstâncias da vida dele. Tudo era tão problemático.
— Senti saudades de você — admito.
Oscar fica em silêncio. Mas dura pouco.
Achei que nunca ia ouvir isso. Também senti sua falta,
Esmay.
— Eu sei.
Sabe, é?
Dou uma risada. E então ficamos em silêncio.
— Esmay? — diz ele, em tom de reprovação.
— O que foi? — respondo, um pouco na defensiva.
— Você precisa continuar falando. Sem parar, beleza?
— Eu não…
— Eu sei que te contei que nós, homens, gostamos de acordar às
duas da manhã pra falar com mulheres inteligentes e
ridiculamente lindas. Esse é um segredo nosso, e eu contei diz,
meio sonolento. Mas talvez alguns homens tenham menos
resistência. Deve ser o meu caso.
— Ok…
Então continua falando sem parar pra eu não cochilar,
tudo bem? Eu gosto de ouvir você falar, das risadas que você dá.
Quero te fazer companhia. Me ajuda a ficar acordado?
Meu coração idiota um salto tão violento que sou obrigada a
levantar da cama. Respiro fundo uma, duas vezes.
— Você não precisa ficar acordado. Volta a dormir.
Não fala baixinho. Pode conversar sobre qualquer coisa.
Prometo que não vou dormir.
Então eu falo sobre várias coisas. Porque quando me sinto a
vontade e quando quero sou uma tagarela. Não me lembro de
muita coisa depois disso. Oscar continua ouvindo, comentando
uma coisa ou outra. Critica quando digo que, na edição do BBB
em que Juliette venceu, eu assisti como uma louca.
— Esmay?
— Oi.
Você é muito inteligente, sabia? Sempre achei você fora da
curva.
— Isso parece tão condescendente.
Não é, não Oscar garante. Eu reviro os olhos. Mas sério!
Como uma pessoa tão inteligente como você consegue assistir a
uma porcaria dessas?
— Você sequer assistiu a alguma coisa dessa edição?
— Eu jamais perderia o tempo que eu não tenho com isso.
— Hum-rum. Ok.
Mas quando envio alguns links do YouTube pra ele… quando
Oscar assiste às maiores tretas entre os principais participantes
da edição… quando alianças destroçadas por fofocas e
conspirações… ele se torna um comentarista nato, digno de
respeito.
— Isso deve ter sido loucura no ao vivo.
— Foi. Uma final digna de Copa do Mundo, não acha?
— Você é sempre tão exagerada assim? — pergunta ele.
— Você não imagina o quanto.
Engraçadinha. Ele sorri. Meu coração dispara. Me fala
mais sobre você.
— Por quê? Só pra depois tirar sarro de mim?
Esmay… ele suspira. Acho que está com sono. Porque eu
também estou… sonolenta. — Você não faz a menor ideia, não é?
— Do quê?
— Do quanto eu…
A voz de Oscar fica distante. Não porque ele para de falar, mas
porque o meu corpo começa a ceder antes de mim.
O celular escorrega um pouco entre os meus dedos. O
travesseiro parece mais macio. O quarto, mais aconchegante, os
lençóis quentinhos.
A última coisa que percebo é a respiração dele do outro lado da
linha — constante, presente — antes de tudo ficar silencioso.
E então, eu durmo.
Não está mesmo cansado? pergunto e ouço o barulho de um
molho de chaves. Oscar… pode desligar. A gente se fala depois.
Não quero atrapalhar seu descanso.
Ouço quando ele abre a porta do apartamento.
Você quer desligar? pergunta, com uma voz suave. Tudo
bem se estiver com sono. Você também precisa descansar, meu
bem.
— Não quero, não — confesso, quase sussurrando. — Eu gosto.
— Gosta do quê, Esmay?
— De ouvir a sua voz.
Silêncio. Oscar não responde. Meu Deus! Eu acho que exagerei.
Por que ele não…
Eu amo ouvir a sua voz diz ele, sem rodeios agora. Na
verdade, eu amo tudo em você, Esmay. Isso não é nenhum
segredo. Você sabe.
— Sei, é?
Não tem como não saber. Cheguei de um plantão que
pareceu sugar até a minha alma. No entanto, quando você me
ligou, eu atendi. É o que eu sempre faço. Vou estar sempre
disponível para você.
— Eu nem sei o que dizer.
— Diga que aceita.
— Oscar…
Esmay, não tem como eu aguentar mais. Ele suspira,
depois ri. É. Acho que ele está dando risadinhas. Você não pode
ser assim tão malvada.
— Não estou sendo.
Está retruca ele. Eu não me importo em ser rejeitado
por você. Seria uma honra, na verdade. Mas eu queria poder ter a
chance de ver você para além daquele hospital. Uma única vez. Eu
queria poder te levar para jantar em algum lugar que não seja a
cantina da clínica. Um lugar à sua altura.
Estou corando. Ainda bem que me encontro embaixo do meu
cobertor, no escuro, com a porta do quarto trancada. Posso ficar
vermelha à vontade. Ninguém vai saber.
— Esmay… diga que aceita.
— Oscar, por favor… — peço.
Por favor, o quê? Por favor, deixe de ser atencioso, gentil,
perfeito, incrível…? Por favor, deixe de ser o homem mais lindo
que conheço?
— Diga que aceita, meu bem.
Meu bem? Ele sabe como me fazer derreter. Meu coração
acelera. Eu quero… dizer que sim.
Tudo bem ele quebra o silêncio. Eu solto o ar que estava
prendendo. — Sou um homem paciente, Esmay. Leve o tempo que
quiser. Tenho todo o tempo do mundo quando o assunto é você.
Ele não insistiu.
Depois disso, ficamos mais de duas horas conversando ao
telefone. Sempre fui muito curiosa. Sendo assim, aproveito para
perguntar algumas curiosidades do corpo humano. Na maioria
das vezes, é baboseira. Porém, Oscar parece não se importar.
Ele é sempre solícito e responde a todas as minhas perguntas.
Mesmo as mais idiotas.
Quando pergunto por que sentimos dor de cabeça, que o
cérebro não sente dor, ele não hesita em responder, mesmo
aparentemente exausto:
O cérebro não sente dor, mas ele é ótimo em perceber
quando alguma coisa ao redor dele está errada.
ele traduz isso em dor de cabeça? pergunto, soltando
um bocejo demorado.
Oscar uma risada baixa. Ele parece estar andando pelo
quarto agora. Será que está tentando manter o cérebro em alerta?
Tentando não… dormir?
Está com sono, meu bem? pergunta com uma voz
divertida.
— Não. De jeito nenhum!
Posso ver a imagem clara de Oscar à minha frente agora.
Sorrindo de um jeito fofo enquanto balança a cabeça.
— Você gosta de se torturar, não é? — pergunta.
Isso nem de longe é tortura rebato. Por favor, Oscar.
Continua.
Outro bocejo. Ele sorri.
Beleza. Bom, é como morar num prédio silencioso, mas com
um alarme sensível demais.
Solto um muxoxo. Será que entendi direito?
O cérebro fica em uma “embalagem”. Ele não sente dor, mas
tudo em volta sente. Quando um vaso dilata demais, um músculo
contrai ou uma membrana estica, esses sensores disparam.
— Como um termostato? — indago, curiosa.
Isso! Será que estou diante de um gênio? elogia, com uma
voz gostosa de ouvir.
— Eu só disse o óbvio.
Ouço uma torneira sendo aberta.
— Você tem que aprender a receber elogios, Esmay.
Reprimo um revirar de olhos. Ok. Ele tem razão. Não me saio
muito bem com elogios.
— Continuando…?
Beleza. O cérebro funciona como um termostato, meu bem
continua. Ele tenta manter tudo estável. Quando algo sai do
padrão, ele dispara um aviso: cansaço, dor de cabeça, febre.
Uma pausa.
Gostei dessa metáfora do termostato digo, orgulhosa de
mim mesma.
Se fosse uma prova oral, eu te daria nota dez. Excelente
observação. Você é muito inteligente, minha aluna mais
excepcional.
— E também a mais bonita.
— E também a mais bonita. Óbvio — diz, divertido. Eu sorrio.
Nós conversamos por mais alguns minutos e, quando desafio
Oscar a falar todos os ossos do corpo humano, achando
ingenuamente que dessa vez ele iria desistir, ele não aceita
como começa imediatamente.
A voz muda e fica mais baixa, mais lenta. Quase cuidadosa.
Ele começa pelos maiores, segue pelos menores, e eu deixo de
prestar atenção nos nomes estranhos muito antes de ele chegar
aos membros inferiores. As palavras se embaralham num ritmo
constante, hipnótico. Não importa quantos ossos sejam. Não
importa como se chamam. O que importa é o jeito como ele fala,
como se soubesse exatamente que eu estou ali, de olhos fechados,
respirando mais devagar a cada minuto, quase dormindo.
Relaxada demais para conseguir me manter acordada.
Meu corpo afunda no colchão. O cobertor parece mais pesado.
Mais quente.
Quando ele chega nos ossos das pernas, eu acho, a voz dele
virou som. Uma presença. Algo seguro. Distante e, ao mesmo
tempo, perto demais.
Não vai conseguir ficar acordada, Esmay ele diz, em algum
momento.
Eu tento responder. Juro que tento. Mas o sono vem antes. Um
sono que me puxa sem pressa.
A última coisa que tenho consciência de ouvir é a voz dele outra
vez, ainda mais baixa, quase um segredo:
— Dorme bem, meu amor.
Não sei se ele disse mesmo. Ou se foi o meu cansaço
inventando esse carinho.
Quando penso nisso, já estou dormindo.
Tento parecer indiferente quando Milla me pergunta na semana
seguinte:
— Tem conversado com ele, não é?
Meu coração acelera. Sinto um aperto na boca do estômago.
Sim. Todos os dias. O tempo todo.
Oscar sempre arruma um tempinho para mim.
— Quê?!
Elizabeth diz em tom de reprovação. Eu me encolho. Eu
não sou burra. Não precisa ser nenhum gênio para perceber isso.
Apesar de ser esse o meu caso também.
Reviro os olhos.
Estamos caminhando lado a lado em direção ao bistrô de que
mais gostamos. Ao menos é isso que eu estou tentando fazer,
enquanto me esforço ao máximo para acompanhar o ritmo de
suas pernas longas.
Hoje o dia está frio e pede um chocolate quente.
— Já se beijaram alguma vez?
Ah, meu Deus! Não, Milla. Empurro seu ombro com o
meu. Você e Sthela são muito inconvenientes às vezes. Espero
que só façam isso comigo. Nem todo mundo aguenta.
Ah! Se quiser ter o prazer da minha companhia, tem que
aturar.
— Infelizmente eu aturo isso há mais de três anos.
— Yes! Mas e aí? Já saíram, já se beijaram, vocês ao menos já…
Nem ouse completar essa última pergunta interrompo seu
raciocínio assustadoramente acelerado. As pessoas na rua nos
olham de cara feia. Talvez eu esteja falando alto demais. Para
de fazer perguntas constrangedoras, Milla.
Meu Deus! O que falei demais? diz, levando as mãos ao
peito. Os lábios dela se curvam em um sorriso torto. Esmay,
você claramente está caidinha por este homem. Não consegue
nem fingir. Aposto que, se ele pedir qualquer coisa, com certeza
você vai…
Tapo a sua boca com as minhas mãos, nervosa. Eu sou rápida,
graças a Deus. De repente, fico ansiosa. As mãos suando, a
respiração acelerada. Ah, meu Deus! Acho que alguém aqui
precisa respirar devagar. Agora. Eu, no caso.
Como você é certinha, amiga. São perguntas normais e
inocentes.
Normais, talvez. Inocentes, nem tanto digo, tentando soar
controlada.
Eu não estou entrando em pânico. Me obrigo a acreditar nisso.
Certo. Ela junta as mãos. Você está parecendo uma
pimenta de tão vermelha.
— Eu não…
Respira, Esmay. Quero ter a chance de provar esse chocolate
quente antes de você morrer.
Eu morrer? pergunto, odiando o tom choroso da minha
voz. — Deus me livre! Por que diz isso?
Sim. Ela responde, olhando fixamente para mim. Estamos
a alguns metros de atravessar a rua. Fico até com medo de passar
em cima da faixa por alguns segundos. Isso é besteira.
falando isso porque, se continuar a prender a respiração assim
toda vez que fala do Oscar, não quero nem saber o que vai
acontecer com o seu cérebro quando…
Ela se interrompe. Depois, morde o lábio inferior, e eu fico
confusa.
Quando… o quê?
Ludmilla é meio maluca e um pouco imprevisível. Então nunca
sei o que esperar dela. Seu senso de humor muda como o seu
cabelo. O tempo inteiro. Inclusive, eu a vi de cabelo natural
ontem. Hoje está de trança com jumbo num tom de marrom-
claro.
De repente, me sinto inquieta. Será que ela pretende me jogar
na frente de algum carro quando ele passar? É. Essa cara dela está
esquisita. Tá pensando em cometer amigacídio, sim.
Não quero nem imaginar o que vai acontecer se você o
encontrar pessoalmente fora daquele maldito hospital.
Do que é que você está falando, sua matadora de amigas?
Ela inclina a cabeça, confusa. Acho que não entendeu a crítica
explícita da minha… acusação sem fundamentos?
Mas eu juro. Parecia que ela ia me empurrar, sim.
— Esmay.
— Oi.
— Você é esquisita pra cacete!
— Eu sei.
— Eu meio que gosto — admite. O sorriso matador continua lá.
Agarro a alça da minha bolsa de camurça verde, com chaveiros
fofinhos que ganhei de presente dela e de Sthela, e a observo
morder os lábios para suprimir uma gargalhada.
Espero que tente ser menos esquisita. E, por favor, respira,
Elizabeth. Se continuar a prender a respiração assim, vai
comprimir seu cérebro.
Inclino a cabeça. Agora sou eu que estou confusa.
— Respira com naturalidade.
Já estamos atravessando a rua.
— … E, por favor, esse é o ponto-chave da questão: não fica puta
comigo?
— Por que eu ficaria puta com…
Ah! Ah.
Mas é óbvio que eu vou ficar brava, Milla.
Eu acho melhor você correr, sua…
Não tenho a menor chance de dizer nada disso a ela. Porque, no
instante em que me viro para olhar em seus olhos, ela se foi,
passando por ele.
Ombros largos, que eu me lembro bem. Os olhos verdes mais
bonitos que vi, o sorriso cativante, a beleza assustadoramente
viciante. Uma montanha de músculos de 1,90 metro. Oscar.
Ele vem em minha direção. Eu fico paralisada. De um jeito
bom, claro. Porque eu sou apaixonada por ele.
As pessoas passam na rua apressadas com os presentes de
Natal. Conversando sobre a preparação da ceia. Eu continuo
parada. Catatônica no bom sentido da palavra.
Ele faz isso comigo. Sinto borboletas coloridas e brincalhonas
no meu estômago.
Ele acena com a mão, de leve. Sorri. E depois sorri mais.
Minha boca fica seca. Tento sorrir, mas parece que estou tendo
um derrame, eu acho. Sorrio de boca fechada. Com os lábios mais
para um lado do que para o outro. Ajeito o boné branco na cabeça.
Será que estou bonita o bastante?
Olho para ele, que sim. Definitivamente está de tirar o fôlego.
Meu coração acelera.
Acho que estou ruborizando. Ele também está. No caso dele,
deve ser o frio, porque não é possível que ele… Deus! Lembrar de
respirar. Ok. Milla, sua enxerida! Você vai me pagar.
Ele se aproxima. Mais e mais. Não saio do lugar. Meus pés
parecem chumbos. Não preciso me esforçar mais tanto assim…
Porque, quando eu menos espero, Oscar precisa de mais um
passo para chegar até mim. E então, como se isso tudo não
fosse demais para o meu coração acelerado… Oscar faz algo que
muda tudo.
É rápido, mas tenho tempo de impedir, caso eu queira. No
entanto, não faço isso. Porque sim. Eu também quero.
Minhas mãos tremem. Acho que as dele também.
E é aí que Oscar me beija.
CAPÍTULO ONZE
Não é um ultimato
“Em vão tenho lutado comigo mesmo; nada consegui. Meus sentimentos não podem
ser reprimidos e preciso que me permita dizer-lhe que eu a admiro e amo
ardentemente.”
— Orgulho e Preconceito
O beijo dura o suficiente para me deixar tonta.
Mal consigo me segurar sobre minhas pernas.
Então Oscar agarra a minha cintura. Um aperto forte, mas não
é inconveniente. Eu gosto.
Tudo bem? pergunta, com a respiração falha, os lábios
entreabertos, os olhos verdes brilhantes. Me desculpa. Peguei
você de surpresa. Olha eu…
Suas mãos ainda tremem enquanto ele me segura. Esse homem
enorme e um gênio da oncologia está praticamente tendo um
colapso, e isso tudo é por minha causa? Tento não deixar isso
subir à cabeça.
Você… insiste ele, cauteloso, o corpo inclinado em minha
direção. — Está bem? Foi tudo muito…
É. Foi sim.
— Estou bem, obrigada.
Minha voz sai fraca e mais rouca do que eu pretendia. Minhas
bochechas ardem de vergonha. Faz tanto tempo que não beijo
ninguém. Talvez tenha sido o pior beijo da vida dele.
Ele assente sem nunca tirar os olhos de mim.
Oscar é arrebatador. Nunca havia sentido isso por mais
ninguém. Até a maneira como me toca é diferente. Como se eu
fosse… feita de cristal. Não. Como se eu fosse feita de uma
matéria muito frágil. Como se ele quisesse me proteger o tempo
inteiro. E Deus, eu deixaria ele fazer isso por mim. Amaria ser
cuidada por ele.
Foi uma armadilha ele diz. Percebo um leve incômodo em
seu rosto perfeito. Como ele fala… é quase como se sentisse
vergonha. Ele desvia os olhos dos meus por alguns segundos e eu
sinto uma vontade absurda de abraçá-lo. De dizer que não precisa
ficar constrangido. Não comigo. Eu tinha que tentar, Esmay.
Milla aceitou ser meu bode expiatório.
Sinto o rosto corar novamente. O coração batendo forte no
peito. Não faço a menor ideia de como ele conseguiu convencer
Milla a fazer isso. Ela é incapaz de guardar segredo. Mas, veja só:
guardou.
Ela é um excelente bode expiatório retruco, com a voz
fraca, insegura de repente. Ela é esperta também. Quando viu
que as coisas iam sobrar pra ela, fugiu sem deixar rastros.
— Uma parceira de crimes excepcional.
Ergo uma sobrancelha. Depois sorrio.
— Sim. Ela é.
Oscar reflete por alguns segundos. Sorrio um pouco mais, agora
mostrando os dentes.
Eu adoro quando você sorri. Esse seu canino… confidencia
ele, baixinho. Eu prendo a respiração, porque esses olhos verdes
bálticos conseguem me hipnotizar. Não consigo parar de olhar.
Quando você sorri, quero dizer.
— Os meus caninos?
— Sim. Os seus caninos — repete. — Lindos.
— Obrigada?
— Aprendendo a aceitar elogios mais facilmente, Esmay?
— Aprendendo com o melhor.
Agora Oscar mantém apenas uma das mãos apoiada em minha
cintura. A outra ele usa para acariciar minha bochecha, tocar meu
queixo, a pontinha do meu nariz, enquanto fala comigo. Acho isso
fofo. Oscar é muito fofo, na verdade.
— Não vai ficar metida, linda.
Bufo de deboche.
Ah, fala sério. Agora que aceitei o fato de ser ridiculamente
linda, você quer que eu tenha humildade? Não. Toco o dedo na
ponta do seu nariz obscenamente arrebitado, e ele o franze. Fofo.
— Não mesmo. Eu quero ser metida.
Ele me puxa para longe da multidão que se aproxima. Um
grupo de homens vestindo roupas engraçadas de Natal.
Vem cá.
Olho para ele e sinto aquele calorzinho que sempre surgia
quando ele me ligava. Quando eu ouvia essa voz. Com essa
cadência toda ao meu dispor.
Você é absurdamente linda, meu amor diz Oscar, sem
vergonha alguma, os lábios agora bem próximos à minha orelha.
Pouco depois, ele volta a me encarar, observando meu rosto com
cuidado. Memorizando cada centímetro das minhas bochechas
sardentas. Dos meus lábios. Eu estremeço. Esse homem… Por
mim, pode se gabar o quanto quiser. Você tem licença poética da
beleza pra isso. Não sei se isso existe, mas, se não existir, eu
acabei de criar.
Gargalho, e Oscar afunda o nariz no meu cabelo cacheado ralo.
A gente pode entrar? pergunto, apontando com o queixo
na direção do bistrô. Foi uma armadilha, mas ainda assim eu
quero um chocolate quente bem gostoso. — Eu… estou com frio.
Está com frio, meu amor? Ele afaga meus ombros. Oscar
usa uma blusa bem quentinha, preta, e um casaco elegante verde-
escuro. Combina com a cor de seus olhos. Vem cá. Isso… Deixa
eu te esquentar. Espera. Na verdade, eu acho que…
Ele retira o casaco verde do corpo.
— Não, Oscar.
Ele sorri, não se importando.
Esse homem possui algum termostato no corpo que aumenta a
temperatura corporal e eu não estou vendo?
— Melhor agora?
— Melhor. Obrigada. Mas e você?
— Amor, eu não sou tão sensível assim — murmura, com o rosto
a centímetros do meu. E, mesmo assim, não sou eu que estou
com os lábios roxos.
— Estou de lábios roxos?
Ele assente.
— Sou muito fraca mesmo. Ok. Obrigada. Mas, e então… a gente
pode entrar?
Ele reflete por alguns segundos e então sorri, os olhos
procurando os meus.
A gente vai entrar, Frozen brinca, apertando a ponta do
meu nariz. — Só…
Seus olhos, sua voz e seu sorriso são suaves. Oscar não parece
nem um pouco nervoso. Não como eu. Parece que ele vinha
pensando em tudo havia bastante tempo. Ele conhece meu
coração como ninguém.
— Só…? — pressiono, inclinando a cabeça para o lado.
— Esmay… eu…
— Você…?
Franzo as sobrancelhas. Inclino ainda mais a cabeça. Talvez eu
esteja ficando um pouco tonta com esse ângulo estranho.
— Você aceita casar comigo?
Arregalo os olhos. Faz algumas semanas que a gente se
reencontrou e eu… Não, espera. Ele disse isso mesmo? Eu devo
estar delirando por conta do frio. Porque Oscar definitivamente
não me pediu em casamento.
— O que você disse?
Ele sorri, envergonhado. Fecha os olhos com força e então os
abre. Estão mais brilhantes do que nunca.
— Você gostaria de casar comigo?
Se eu gostaria…? Abro a boca para responder, mas ela
permanece aberta.
Consigo sentir meu sangue pulsando nos dedos, no pescoço.
Todo o meu corpo pulsando. Por Oscar ou para Oscar. Eu não sei.
Meu coração está saltitante e, ao mesmo tempo, confuso.
Oscar, eu estou… De repente, paro. Engulo em seco.
Respiro fundo. É assim que você imaginava que seria o seu
pedido de casamento?
Era uma pergunta verdadeiramente inocente. Eu estava
chocada, mas também muito curiosa. Porque até mesmo meu
coração sabia que Oscar não era impulsivo. Mas isso é…
Eu não faço a menor ideia, Esmay. Ele retira uma mecha
de cabelo do meu rosto sem nunca desviar o olhar. Mas, no
fundo, eu sempre soube que queria que fosse com você. Sempre
foi você.
Ele está sério. Um pouco nervoso agora. Eu também estou. Na
verdade, estou tremendo feito vara verde. Minhas mãos tremem
tanto que eu as escondo dentro dos bolsos do casaco que Oscar
me emprestou.
Oscar, você devia estar ajoelhado ou… Sinto meu rosto
queimar. Os lábios tremem. Mordo a bochecha. Estou tão nervosa
que tenho medo de desmaiar. — Você devia, meu amor.
Ele arregala os olhos. Eu nunca o chamei assim. Mas quem eu
quero enganar? Eu amo esse Homem. E não é um amor qualquer.
Senti isso durante boa parte da minha vida, e acho que isso não
vai mudar. Oscar sente o mesmo. Essa é a prova.
Ele se ajoelha.
— Você devia me oferecer um anel?
Seu sorriso agora é imenso.
Ele retira do bolso uma caixinha. Lá dentro, um anel lindíssimo.
Pedras cravejadas em um tom verde. Parecido com… a cor dos
seus olhos.
Tenho um sobressalto.
Melhor agora, meu bem? pergunta, sorrindo, e eu quero
beijá-lo.
— Quando foi que você…
No dia em que encontrei você pela primeira vez reflete,
sorrindo. — Quando você quis dá uma de bela adormecida.
Meus olhos se arregalam, quase saltando das órbitas.
— Oscar, isso é completamente insano.
Eu sei. Mas é o que eu quero, Esmay. Quero ser seu marido.
Me deixa cuidar de você?
Você me acha tão bonita assim a ponto de não conseguir
esperar mais alguns meses?
Isso, meu amor. Você é bonita demais para passar
despercebida. É por conta disso que quero me casar com você.
Ah! Não posso esquecer o fato de você ser a única herdeira dos
seus pais. Como pude me esquecer disso?
Ele revira os olhos e depois sorri. Um sorriso frágil e bonito.
Quero encapsulá-lo.
Tive tempo demais para pensar a respeito, Esmay declara.
Antes mesmo de encontrar você naquela escada. Antes até de
aceitar a residência na clínica do Zhang. Tive muito tempo para
fantasiar uma vida com você. E, se o que você quer é pensar mais
um tempo, eu espero. Não é um ultimato. Como disse, sou um
homem paciente.
Meus lábios estão tremendo. E isso definitivamente não tem
nada a ver com o frio.
Posso fazer a pergunta quando se passarem mais alguns
meses. Por mim, tudo bem.
Faço que não com a cabeça.
Não é isso que eu quero.
— Não… você não aceita? — pergunta, ainda de joelhos. Está tão
frio. O chão ainda molhado da chuva mais cedo. Mas ele sequer se
importa. Esse homem é perfeito. Para mim. Pode pensar mais a
respeito. Não precisa responder agora.
— Não, eu… Oscar, eu…
Amor, você quer que eu pergunte de novo?
Faço que não novamente.
— Não precisa.
Meu rosto está queimando. Meus olhos se enchem de lágrimas.
— Meu amor…
— Eu aceito — digo, e as lágrimas molham meu rosto.
Quero pular em seu colo, abraçá-lo, beijá-lo muito. Mas fico
desnorteada. Deve ser o choque. As pessoas ao redor continuam
passando. Sinto o cheiro de café e chocolate quente vindo de
dentro do bistrô. O vento gelado castiga minha pele, mas meu
coração, em contrapartida, fica quentinho.
— Aceito me casar com você, Oscar! — repito.
Ele se levanta rapidamente. Uma montanha imensa que me
separa do resto do mundo.
— Quero tudo com você, meu amor. Sempre quis.
Meu Deus, Esmay! ele me abraça. Meu amor, eu nem
acredito. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Amo tanto que chega a
doer o meu coração. Não suporto mais um dia sequer longe de
você. Não vou te deixar ir embora nunca mais, agora que
reencontrei você.
Eu também te amo, meu amor digo, com a voz embargada.
Lágrimas molham o meu rosto, e eu quero sentir tudo isso, sim.
Esses bons sentimentos vindo em minha direção como uma
avalanche. Me permito sentir todas as sensações desse momento.
Não dispenso absolutamente nada.
Ele me levanta e me rodopia no ar algumas vezes. Gargalho e
ele me aperta ainda mais.
Os braços fortes ao redor da minha cintura. O cheiro gostoso
inundando minhas narinas. Sua voz linda quando diz que sou
perfeita, que me quer, que sou o amor da sua vida. Arrepios
percorrem meu corpo. Esperei tanto tempo por isso que agora
parece que tudo finalmente se encaixou.
— Eu te amo, Oscar.
Ele sorri. Um sorriso tão bonito que quero encapsulá-lo em meu
coração. Por um segundo, tenho ciúmes dele. De que alguém o
veja.
Oscar beija o topo da minha cabeça, e eu olho para cima. Para
ele. Estou sorrindo há um bom tempo. Minhas bochechas doem.
— Oscar, você não tem ideia do quanto eu…
— Acho que eu tenho, sim.
Ele me põe no chão. Estou feliz, tonta e completamente
inebriada. Emoções à flor da pele.
— Eu te amo — repito. Ele assente. — Você é perfeito.
Seu sorriso fica maior.
Esmay… chama, com o queixo apoiado no topo da minha
cabeça. Eu me afasto para olhar bem seu rosto. Meu amor, será
que finalmente eu posso só…
Ele provavelmente não viu a resposta em meus olhos antes,
porque agora, quando me encara de verdade, sua voz fica mais
confiante.
— Será que agora eu poderia… beijar você?
Oscar… ele me encara, os olhos brilhando. Eu achava
que você nunca iria pedir isso.
E então ele me puxa para si. Diferente do outro, este contato é
mais reivindicatório. Porque agora Oscar sabe o que eu quero de
verdade.
Suas mãos se apoiam em minha cintura enquanto meus dedos
passeiam pelos fios dos seus cabelos macios. Estou quase sem
fôlego, tentando alcançá-lo, que Oscar é alguns bons
centímetros mais alto do que eu. Isso não o impede de me
envolver com ainda mais vontade.
Ele me prende contra o corpo enquanto explora minha boca e,
num gesto firme, me ergue do chão, me dando mais acesso aos
seus lábios. Quando ajusta melhor minha cintura contra a dele, eu
suspiro bem ali, entre nós dois, e ele faz o mesmo. Seu hálito
quente e gostoso faz cócegas na pele do meu rosto.
— Oscar…
Eu sei, eu sei murmura, com a boca colada à minha. O
gosto é de menta e dele mesmo.
Oscar continua me envolvendo, afastando-se apenas por
instantes para sussurrar o quanto sou linda, o quanto me ama e o
quanto aprecia o gosto da minha boca, o meu cheiro. Depois,
deixa um carinho suave na minha bochecha, encaixa o rosto na
curva do meu pescoço e sinto seus lábios se curvarem em um
sorriso enquanto ele me presenteia com pequenos afagos.
Quando volta a me alcançar, o faz com delicadeza. Um toque
calmo, terno, que desacelera tudo. Quando estamos os dois sem
ar, os peitos colados subindo e descendo devido à euforia do
momento, ele me põe devagar no chão. Antes de se afastar, inclina
o corpo em minha direção e sela nossos lábios mais uma vez, com
cuidado.
Ficamos alguns segundos nos encarando, tentando processar o
que acabou de acontecer, com o coração quase saltando do peito
de tanta alegria. Estou tão feliz que me sinto um pouco sonolenta.
Como isso é possível?
— Amor? — Oscar acaricia minhas costas. Uma carícia terna. Eu
poderia morar nesse abraço. — Feliz Natal, querida.
Olho em seus olhos e vejo a simplicidade dessas palavras. Sim.
Hoje é Natal. E sim, eu estou feliz. Como nunca estive.
— Feliz Natal, meu amor — digo.
Ele sorri.
— Na verdade… Feliz Natal, meu futuro marido.
Quando digo isso, estou de olhos fechados, sem conseguir ver
sua reação. Mas sei que Oscar está sorrindo. Acho que ele nunca
vai parar de sorrir. Ao redor, o frio continua mas aqui, entre o
cheiro de chocolate quente e o sorriso dele, eu finalmente estou
em casa.